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LITERATURA

“Deveria ser muito mais natural a gente falar de amor e sexo”

Esqueça o que te disseram sobre amor e sexo é o segundo livro do escritor e jornalista André Alves que fala sobre os tabus nas relações sexuais e amorosas

Allan Pereira

Jornalista

26/03/2018 11h30 | Atualizada em 26/03/2018 16h20

“Deveria ser muito mais natural a gente falar de amor e sexo”

Arquivo André Alves

Quando começou a publicar textos sobre sexo e relacionamentos amarosos na plataforma Medium, o escritor André Alves não pretendia escrever um livro. O tema passou a ser familiar para o autor quando precisou pesquisá-lo para um projeto de dissertação de mestrado (que foi descartado). Desde então, ele já escreveu diversas vezes sobre o assunto, envolto por inúmeros tabus. Então, por que não reuní-los em uma publicação? Foi assim que seu segundo livro ganhou vida.

Esqueça o que te disseram sobre amor & sexo foi publicado em fevereiro na Amazon. O livro não possui gênero específico. Os 16 textos variam entre contos, crônicas, artigos ou uma mistura de cada um ou dois deles. Alguns são ficcionais. Outros são baseados na vida do autor. Opinião, biografia e ficção se misturam nesta obra.

Com 41 anos e dois livros publicados, André é jornalista de formação e tem uma especialização em antropologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Além disso, tem longa experiência em jornalismo socioambiental. Atualmente, é analista de marketing para o Sesc Cuiabá e produz artigos regularmente para o portal Top Buzz.

Na entrevista do autor com Circuito Mato Grosso, conversamos sobre seu livro, literatura, sexo, tabus e publicação de livros digitais. André acredita que deveria ser natural para as pessoas “falarem de amor e sexo”, e aconselha: “o importante é se permitir”. Confira o bate-papo abaixo:

Capa do livro digital de André Alves.
A capa do livro digital de André Alves.
Ilustração

Circuito MT: O que te levou a escrever o livro?
André: Então senta que a história é longa (risos). Sou jornalista. Há uns dois anos eu estava fechando um tema para mestrado. Comecei a pesquisar bastante 'temas tabus'. Prostituição, indústria pornográfica, traição. Tudo isso de uma forma que eu pudesse achar um tema para o meu mestrado na UFMT. Só que passou um tempo eu desisti de fazer o mestrado, mas tinha visto bastante coisa, tinha entrevistado bastante gente, tinha feito alguns tipos de documentário. Aí, há mais ou menos um ano e meio, comecei a escrever para uma plataforma chamada Medium — não sei se você conhece, é uma plataforma de autores e de vários textos. Comecei a escrever também para um site chamado Top Buzz. Eu sou um dos articulistas do site. E aí eu comecei a ver que tinha alguns assuntos que eu estava escrevendo que eram diretamente relacionados a sexo e relacionamentos amorosos. Então eu já tinha um tema. E aí o que eu fiz? Eu resolvi elencar os temas dos tabus nos relacionamentos e escrever sobre eles. E acho que dá para fazer um livro sobre isso. E o que eu fiz foi, não sei se você teve acesso, escrever de uma forma que não fosse uma só. Como acredito que são várias formas de se relacionar, eu achei que não deveria ter uma única forma de escrita.

Circuito MT: Tem algum conceito que você acha que perpassa todos os textos, além do sexo?
André: Acredito que as formas de viver os relacionamentos são diversas. Acredito que tenha uma tradição de achar que a gente demora a ficar noivo e casa. Que é uma forma, mas não a única. Tem outros tipos de relacionamentos. Também tem que a sexualidade que não é uma coisa dada. É muito mais complexa do que parece. Então é uma coisa para se conhecer e se permitir. Fora isso, eu sou uma pessoa mais careta (risos), mas não quer dizer que eu não concorde que outras pessoas possam ter uma vivência mais aberta.

Circuito MT: E teve algum livro que foi uma inspiração para você escrever estes textos?
André: Assim, livro, LIVRO não teve. Mas posso dizer que a Regina Navarro Lins com certeza, a psicóloga, foi uma inspiração para algumas coisas. Eu tenho lido bastante coisa dela nestes últimos tempos. Por exemplo, o Tinder. Escrevi um texto sobre o Tinder. Embora eu esteja casado, eu e minha esposa instalamos o aplicativo. Conhecemos pessoas, falamos que eramos casados e fazemos amizade para entender como que funciona o Tinder. Sobre poliamor — eu entrei algum grupo do Facebook sobre poliamor e conheci pessoas que tem essa vivência. Teve todo um processo de um pouco de pesquisa e um pouco de curiosidade para saber destes temas.

Circuito MT: O seu primeiro livro foi sobre depressão...
André: Sim! É um processo, né. Terminei a um ano o tratamento de depressão. O livro foi dividido em duas partes. Na primeira parte, narrei alguns processos de crise que tive na depressão. A segunda parte foi sobre a minha retomada do tratamento.

Circuito MT: E a escrita foi uma forma de te ajudar a vencer a depressão?
André: Assim... a depressão, no meu caso, não é uma coisa curável. É uma coisa tratável. Tenho diagnostico há mais de vinte anos, estou em tratamento, faço análise, terapia, mas melhorou muito. Depois que eu comecei a escrever, foi uma forma mais de extravasar. Aí depois que eu percebi que eu estava narrando um processo de melhora, eu vou fazer isso como um livro. E nos dois casos eu publiquei diretamente pela plataforma digital, pela Amazon. Aquela coisa independente porque não queria perder, caso fosse buscar patrocínio aqui em Mato Grosso é uma coisa muito complicada de se publicar livro, eu não queria perder o interesse, não me desanimar e não queria perder essa vontade. "Vou fazer isso de uma forma anárquica mesmo, independente e vou publicar".

Circuito MT: Teve alguma diferença desse primeiro livro para o segundo?
André: Então, o primeiro livro foi uma coisa mais libertária. Foi sobre um processo que precisava entregar. É uma forma praticamente de comemoração de um ano de tratamento. Já o segundo foi uma coisa mais detalhada. Eu pensei nos temas que ia escrever. Pensei no tipo de narrativa para cada um dos textos que eu ia escrever. Quando terminei, pronto! O que eu quero dizer é isso. Passei para algumas pessoas uma devolutiva que tinham uma qualidade. São pessoas que iam gostar. Para algumas pessoas, eu mandei o artigo; outras, um conto. Duas pessoas leram o livro inteiro. E essas duas pessoas tiveram algumas ponderações sobre algum pedaço que não estava legal ou algumas coisas ortográficas porque tem bastante coisa que a gente não percebe.

Circuito MT: Você está falando de sexo e estamos no momento atual de esconder o sexo. Como você avalia a sua publicação em um momento como esse?
André: Eu acho interessante porque é um tema que dá repercussão, se você pensar para uma pessoa que não tem um nome famoso. Publicar diretamente pela Amazon, você tem que ter um aplicativo para baixar e só pela Amazon teve 500 downloads. Para mim, é um sucesso. E das pessoas mais próximas, eu vi que tem muito tabu ainda. Por incrível que pareça, tem muito tabu. As pessoas não conseguem falar de sexo abertamente, como se fosse uma coisa que ninguém faz nem que seja escondido. Eu acho que quanto mais a gente fala, mais libertador é. Seria bom que as pessoas tratassem com mais naturalidade não só sexo, mas também a sexualidade de uma forma mais geral.

Circuito MT: Você disse que era mais careta. Foi difícil falar sobre sexo e relacionamento amorosos?
André: Não necessariamente, porque eu gosto de falar. Tenho com quem falar. Tenho uma esposa que é muito tranquila. A gente tem um relacionamento muito na boa, não tem muito ciúmes. Nós temos uma vida muito independente. Temos nossas liberdades. Falamos que nós não somos um casal, mas somos duas pessoas que se amam e moram juntos. Temos nossa liberdade. Somos muito livres de relacionamento. Mas para outras pessoas a gente percebe que o casamento se transforma numa posse. Acho isso muito estranho. E, quando falo isso, as pessoas geralmente falam “nossa, que estranho!”, mas quando me encontram sozinho me falam que “nossa, queria ser como vocês são!”. Uai?! Tem alguma coisa errada aí. Tem um tabu!

Circuito MT: Você teve uma educação aberta para este assunto?
André: Eu tive uma educação meio como a de todo mundo. Meus pais são muito conservadores. Minha família é espírita. Estudei em um colégio católico durante muitos anos. Mas eu perdi virgindade aos 13 anos. Foi uma coisa pesada para mim, não tinha com quem eu falar nessa idade. E vivi uma relação poli amorosa quando eu tinha 17 anos. Mas o que foi mudando a minha vida foi ler textos sobre psicologia e fui percebendo que eu não era tão anormal, eu digo, minhas vontades, meus desejos, meus pensamentos. As pessoas sentiam, só não falavam. Nesses livros que eu te falei há várias pessoas têm sentimentos estranhos, tem uma sexualidade diferente, pode estar casado e sentir atração por outra pessoa, que isso é normal. Pensei “que massa! Eu não sou maluco. Isso existe. É normal”. E comecei a gostar do tema.

Circuito MT: O que você acha interessante nos tabus?
André: Eu acho que o tabu é aquilo que você não quer mostrar uma coisa que todo mundo tem. É que nem segredo. Segredo é uma coisa que a gente acha que ninguém mais sabe. E tabu é isso. Por exemplo, pessoas casam e vivem felizes para sempre, mas tem vários estudos que apontam que um casamento não para se tiver uma traição. Por que não falar abertamente sobre traição? O que motiva? Não para estimularem as pessoas a traírem, mas entender o que pode levar uma pessoa a trair ou não. Se a gente não fala sobre traição, a gente está acobertando que essas coisas continuam acontecendo. Eu acho que é melhor nós sermos fiel ao sentimento. É melhor do que ele não pode saber, mas tenho o desejo, vou trair e pronto. E descobre e separa e faz não sei o que, crimes passionais e tudo mais. E quando a gente não fala, guarda para si, a pessoa se sente de uma forma diferente do sexo padrão das pessoas. Tem um filme que eu vi do [Albert] Kinsey, que se chama Vamos falar sobre sexo?, que me mexeu muito comigo na época, que é um psicólogo americano que fez muitas pesquisas sobre comportamento sexual no mundo. Ele fala que entre o heterossexual 100% e o homo sexual 100%, você tem uma gama de sexualidade nesse meio.

Arquivo.

Circuito MT: Você pensou em enviar diretamente para uma editora ou quis publicar no digital?
André: Pensei em fazê-lo digital mesmo. Uma forma digital, até porque eu queria que fosse uma coisa mais anárquica. Estou falando de quebrar padrões, de pensar de forma diferente. E no livro impresso você tem uma lance mais tradicional. Isso não faz sentido. Eu entendo a ideia de que outros textos, poderia passar pela mídia impressa. Mas, na verdade, no momento não. Deixei ir para o digital, até porque queria fazer uma coisa diferente do que se fosse no impresso, já que eu acho é um padrão. E acredito também que seja uma evolução natural. Há uma tendência de cada vez mais as pessoas lerem livros em formato digital. Para mim mesmo é difícil comprar um livro impresso. Vou no digital.

Circuito MT: Hoje há uma tendência na produção literária de haver uma perda da característica de uma literatura de identidade nacional e ser mais influenciada pela globalização. Como você vê essa questão?
André: Eu não acredito muito em uma identidade nacional de literatura. Há diversas formas de literatura, desde as mais tradicionais, mais engajadas, mais formais e mais livres. Creio que assim como na música, há muito mais pluralidade na produção artística, dando voz a produção de quem antes não teria acesso a produzir conteúdo de qualidade. Acho que tem algo que é interessante que é "pluralidade estimula a qualidade". Com meu livro, a proposta era de ser algo para consumo rápido e para leitura na era da internet. De certa forma, como sempre foram as crônicas. Mas sempre haverá espaço para leituras mais densas como o próprio livro da Regina Navarro Lins — Novas Formas de Amar. Eu acho que tem espaço para tudo. Achar que vai ter um Machado de Assis escrevendo, é meio limitante. Acho que você tem narrativas diferentes. Lembrando: Machado de Assis teve boa parte das obras publicadas por capítulos em jornais e que depois foram editadas em livro.

Circuito MT: Quais são os seus autores de cabeceira?
André: Ah, cara! Não sei se tenho autores de cabeceira. Eu gosto muito da Regina Navarro Lins. Em literatura, Machado de Assis, para mim sempre foi o que eu mais gostei. Estou lendo agora Caio Fernando de Abreu, que tem um texto mais ácidos. Tem alguns textos dele que são muito pesados, mas é interessante. Mas não tenho, não tenho [um livro de cabeceira]. Eu prefiro do livro do momento assim. Gosto muito do Nietzsche e do Sartre.

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