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ANA PAULA KANASHIRO

Puberdade precoce é uma doença e pode ser tratada em até 90% dos casos

Alteração no crescimento ósseo, antes do tempo considerado “normal”, pode resultar em baixa estatura física na vida adulta

Karollen Nadeska

Jornalista

16/10/2017 18h05 | Atualizada em 16/10/2017 07h51

Puberdade precoce é uma doença e pode ser tratada em até 90% dos casos

Circuito MT

Seu filho está crescendo rápido demais? Entenda que esse disfunção no organismo nem sempre é um sinal positivo e futuramente pode acarretar em sérios danos à saúde. Aparecimento de mamas, menstruação, pelos pubianos e aumento dos testículos antes dos 8 e 9 anos de idades, para meninas e meninos, respectivamente, pode ser caracterizado como puberdade precoce – um assunto ainda pouco discutido, mas que se detectado o quanto antes tem 90% de chances para o estado de reversão.

A médica especialista Ana Paula Barros Nince Kanashiro, endocrinologista pediatra, de Cuiabá, faz um alerta principalmente para os pais ou responsáveis de primeira viagem. Ela explica que os riscos à saúde são preocupantes, tendo em vista que há impactos psicológicos e social na vida da criança, além de afetar diretamente no próprio desenvolvimento. Existe uma forma de prevenção, no entanto, é preciso acompanhar os filhos desde o seu nascimento.

Ana Paula Barros é formada em Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e fez duas residências em Pediatria e Endocrinologia/Metabolística pela Universidade de São Paulo (USP de Ribeirão Preto) ao longo de dez anos.

Confira a entrevista na íntegra:

Circuito Mato Grosso: O que é puberdade precoce e como desenvolve na pessoa?

Ana Paula Kanashiro: A puberdade em si é o processo dos caracteres dos desenvolvimentos sexuais secundários no menino e na menina. Então significa o surgimento de botão mamário na menina, de pelos e aumento da bolsa escrotal nos meninos e está associado a um crescimento mais acelerado que é a velocidade de crescimento de estirão. O avanço de idade óssea e todos esses fatores em conjunto caracterizam a fase do desenvolvimento da puberdade na criança, independente de ambos os sexos, além disso, existe uma idade correta de início desses caracteres. É considerado normal que a menina inicie essas características a partir de 8 anos e o menino a partir dos nove. Na prática trata de uma disfunção hormonal relacionado ao início de caracteres sexuais secundários. Então quando a gente percebe que a criança está entrando nesse processo de puberdade precoce ela merece avaliação e tratamento.

CMT: A puberdade precoce é perigosa? Por que ela deve ser tratada?

A.P.K.: Quando a criança se inicia esses caracteres secundários antes do período ideal ela começa também apresentar desenvolvimento sexual mais precoce num processo de crescimento mais acelerado. Então ela faz um estirão de crescimento mais cedo e passa a fechar o espaço que são as epífises ósseas. Para entender melhor significa que ela cresce rápido por um momento, faz um estirão precoce, porém ela para de crescer antes da hora e isso compromete a altura final da criança. Então o objetivo de um tratamento é além de ajustar esse desenvolvimento puberal e que não é adequado pra questão social e adaptação da criança, você também ajuda a segurar esse desenvolvimento ósseo e evita que ocorra o fechamento precoce das epífises. Isso permite que a criança vá crescendo mais devagar e que faça o seu estirão no período adequado.

CMT: Que tipo de medicamento é usado? A senhora poderia citar algum?

A.P.K.: Existe o tratamento que é através de uma medicação análogo do GnRH. Essa medicação bloqueia o processo de secreção hormonal que aconteceu precocemente, então ela segura a liberação desses hormônios e aí a gente consegue evitar a progressão do problema. O que já ocorreu eu não consigo mudar, mas eu consigo impedir que ela libere mais hormônios e evito com que essa idade óssea avance mais.

CMT: Existe um exame para detectar a puberdade precoce?

A.P.K.: Sim, quando a criança acompanhada dos pais chega ao consultório com essa queixa que acha que a criança está desenvolvendo a puberdade antes da hora é feita toda uma análise clínica, a criança é examinada, existem os estágios puberais em que a gente consegue classificar em que estágio de desenvolvimento puberal essa criança se encontra. Durante o exame físico a gente ainda vê altura e peso, para saber se está correspondente. Aí depois é solicitada uma avaliação hormonal por meio da coleta do sangue. Então faz toda uma triagem pra identificar se os hormônios que ela está secretando está compatível com essa clínica dela, além disso, é pedido um raio-X de idade óssea de mãos e punhos para verificar a idade do osso e ver se está com “amadurecimento”.

CMT: O tratamento em si é caro?

A.P.K.: Sim. É uma medicação de alto custo e importada. Existe uma portaria do Estado que fornece essa medicação pela Farmácia de Alto Custo e aí a gente avalia e encaminha a criança se ela realmente está fazendo um processo de puberdade precoce.

CMT: Uma criança que nasce com peso acima do que é comum pode ser considerada com indícios de puberdade precoce?

A.P.K.: Só relacionado a peso não. Pra gente considerar que é um problema hormonal primeiro a gente avalia a criança, avalia a genitália porque esses hormônios são de maturação sexual. Agora, existem hormônios da tireoide e de outras fontes. Quando falamos em puberdade precoce esse quadro clínico geralmente ocorre depois de três anos de idade.

CMT: Em média quantas crianças são atingidas por esse problema?

A.P.K.: A frequência varia de 1 pra 5 mil e até um pra dez mil crianças. Eu posso dizer que ¼ dos meus pacientes sejam relacionados a puberdade precoce e vem aumentando muito e a frequência é muito maior em meninas do que em meninos. As meninas são muito mais afetadas por puberdade precoce do que os meninos.

CMT: Em média quantas crianças são atingidas por esse problema?

A.P.K.: A frequência varia de 1 pra 5 mil e até um pra dez mil crianças. Eu posso dizer que ¼ dos meus pacientes são relacionados a puberdade precoce e vem aumentando muito e a frequência é muito maior em meninas do que em meninos. As meninas são muito mais afetadas.

CMT: Como os pais podem detectar? Qual a diferença entre menino e menina?

A.P.K.: A frequência na menina varia de 3 a 20 vezes mais do que no menino. Então os pais devem sempre ficar alertas ao surgimento de botão mamário antes dos 8 anos de idade. Então se você notar que ela está crescendo rápido demais e que está surgindo esses sinais secundários aí merece uma avaliação. No menino o primeiro sinal de puberdade precoce seria o aumento do volume da bolsa escrotal e o testículo fica dentro dessa bolsa escrotal. Então o aumento do volume da bolsa significa que o testículo está crescendo, esse é o primeiro sinal. Não é o crescimento de pênis e sim o crescimento e o enrugamento da bolsa escrotal que geralmente na criança pequena é lisa e nos meninos que já estão iniciando a puberdade aumenta é enrugada. Se os pais perceberem qualquer alteração na genitália antes dessa idade também merece investigação.

CMT: É verdade que quem tem puberdade precoce tem mais chances de desenvolver tumores?

A.P.K.: Quando eles desenvolvem puberdade precoce o risco de ser associado a um tumor é maior. O desenvolvimento de puberdade precoce nos meninos é mais raro. Mas quando acontece no menino em dois terços dos casos pode ocasionar tumores do sistema nervoso central e aí a gente primeiro tem que investigar a causa da puberdade precoce. Na maioria das meninas é de forma idiopática que é quando você não encontra uma causa específica.

CMT: Considerando esses fatores podemos dizer que a puberdade precoce também é um problema genético?

A.P.K.: Sim, existe a puberdade genética que pode ser detectada através de outros casos na família. Então se na família tiver outros casos de puberdade precoce ou se a mãe, avó da criança teve a menarca que é a primeira menstruação mais cedo e que é considerada antes dos 9 anos e meio, então significa que essa criança também merece investigação. Existe uma relação com mutações genética que são causadoras de puberdade precoce.

CMT.: Produtos industrializados tem alguma relação com a doença? 

A.P.K.: Sim, é o que chamamos de ambiente. O que vem sendo enfrentado hoje é o nosso contato com desrruptores endócrinos que é um outro conceito também estudado pelos pesquisadores. É a interferência de produtos químicos como plásticos, solventes, agrotóxicos, que atuam no nosso corpo desregulando toda função hormonal. Então entrra em contato com esses produtos no dia-a-dia é um risco. Um exemplo é até o Bisfenol A (BPA) que foi proibido na fabricação de produtos para crianças como os brinquedo. Esse produto já foi relacionado à puberdade precoce em criança, mas isso é só uma das substâncias ainda, porque existem várias outras. Além do mais está sendo levantada a questão sobre o revestimento internos das latas, caixas de leite que a gente compra no mercado, fragmentos embutidos e enlatados transmite essa resina internamente.

CMT: Além do endócrino-pediátrico, é recomendado que a criança faça um acompanhamento psicológico? A puberdade precoce pode afetá-lo mentalmente?

AP.K.: Sim. Como o início desses caracteres sexuais secundários ocorrem antes do período adequado ela não está preparada para aquelas modificações no seu corpo e justamente por essas modificações começam também as mudanças no comportamento, as questões psicológicas da puberdade surgem numa idade de uma criança que ainda está na fase da infância, mas essa liberação hormonal muda tanto a parte física da criança como a psicológica. Então existe até uma dificuldade de aceitação do corpo. E elas por um início de caracteres sexuais precoces estão mais expostas ao risco de abusos sexual e acaba se tornando uma questão social.

CMT: A criança está sujeita a ficar mais agressiva?

A.P.K.: Pode acontecer no caso de uma alteração comportamental. Então a criança pode expressar de várias maneiras. Tem criança que expressa com aumento de agressividade, tem criança que pode ficar mais triste ou mais introvertida.

CMT: Futuramente, a mulher pode adquirir problemas de infertilidade?

A.P.K.: Em relação à puberdade precoce a criança começa a ciclar antes da hora. Existe uma tendência de ter uma menopausa mais precoce no caso da mulher. Então quem teve uma menarca mais cedo existe uma tendência de ter uma menopausa mais precoce. A puberdade precoce em si e o tratamento não estariam relacionados a infertilidade feminina. No entanto, os disrruptores endócrinos que são essas substâncias químicas que a gente entra em contato e desregula o sistema hormonal esses sim estão relacionados ao aumento dos casos de infertilidade.

CMT: Existe uma forma de se prevenir?

A.P.K.: Uma causa comum para desenvolvimento precoce das crianças, e é uma causa muito frequente no nosso meio é a obesidade infantil. Prevenir o ganho de peso em excesso na infância ajuda na prevenção dos casos de antecipação puberal e nos casos de avanço de idade óssea. Por isso a alimentação saudável é muito importante, porque além de evitar o ganho de peso excessivo a gente deve evitar o consumo de alimentos industrializados em excesso. A gente já viu que nas embalagens, nos plásticos, tudo isso que reveste os alimentos e que a gente compra no mercado eles podem trazer junto dos alimentos os produtos químicos que são os interruptores endócrinos. Então fruta, verdura, legumes, evitar alimentos que são contaminados por agrotóxicos, seria uma forma de se prevenir.

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