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ARTE NO BUSÃO

Jovens artistas apresentam poesia e rimas em ônibus de Cuiabá; vídeo

Para eles é uma honra interromper as viagens com arte, cultura e informação. "Que deveria ser no mínimo a base de todo coração"

Juliana Alves

Jornalista

13/10/2019 11h39 | Atualizada em 12/10/2019 09h30 8 comentarios

Jovens artistas apresentam poesia e rimas em ônibus de Cuiabá; vídeo

Juliana Alves

É na brincadeira do ‘pedra, papel ou tesoura’, que uma dupla de artistas decide quem pedirá autorização para se apresentar no transporte público de Cuiabá.  Michel Yuri Bispo da Silva, 22 anos, e Lucas de Pádua, 17 anos, são os jovens que aguardam o ‘bom dia’ receptivo do público para o início de um show de poesia, rimas e amor (Veja vídeo abaixo).



Após Yuri, do coletivo 3 por 10, descobrir a arte das palavras, ele passou a desejar levar a expansão da consciência através da poesia.  “Quero mostrar às pessoas que é muito importante o papel dela, não só na sociedade, mas espiritual também. Quando você fala ‘ bom dia! ’, você arranca um sorriso, leva algo bom para alguém. A gente vive em uma sociedade muito robótica. Às vezes a gente entra no ônibus e as pessoas olham para a gente e acham que vamos assaltar”, conta o rapaz.

Ele compartilha que por a população ter muito contato com notícias de crimes como furto, roubo e assassinatos, eles esperam o pior, por isso os jovens artistas desejam quebrar essa expectativa.

Já do coletivo Free World, Lucas, além das ações artísticas no transporte público de Cuiabá, ele participa de projetos que levam a sua arte para as escolas da Capital. São crianças e adolescentes que se interessam por aquele trabalho e começam a produzir também.



“O pessoal da mesma faixa etária vê a gente fazendo arte e se inspiram. Eles veem que conseguem também. A arte muda vida e é importante para todo mundo, principalmente para quem está desenvolvendo a mente. Isso me orgulha”.

É disso que a dupla sobrevive. O dinheiro que arrecadam com o seu trabalho, a sua própria arte, pagam seus aluguéis, suas contas de água, de energia, seu alimento, dessa forma ajudando a sua própria família. Os dois se conheceram em batalhas de rima e há um mês passaram a fazer intervenções artísticas nos ônibus da capital.

Após a decisão através do ‘pedra, papel ou tesoura’, o perdedor do jogo vai pedir autorização, ao motorista do coletivo, para poder se apresentar lá dentro. Eles contam que há motoristas que deixam, outros que negam e alguns que negam após terem levado advertências por permitir as ações.

Com a permissão concedida, eles entram pelas portas dos fundos, se abraçam, aguardam um pouco e cumprimentam com o ‘bom dia’. Aos passageiros, os artistas se apresentam e explicam precisam de um ‘bom dia’ receptivo dos passageiros, caso contrário, combinaram com o motorista que pulariam do ônibus, pela janela.

Brincadeiras a parte, nas duas viagens que o Circuito Mato Grosso acompanhou, os passageiros aceitaram a apresentação dos jovens. Com um livro em mãos, Yuri apresenta sua poesia e em seguida, andando pelo ônibus,  Lucas faz o seu improviso com as palavras.

O clima fica descontraído, sorrisos brotam em alguns rostos e a dupla apresenta seu chapéu. “Passar o chapéu é ganhar pelo seu trabalho. As pessoas contribuem com o que vier do coração delas. Tem gente que não entende e acha que a gente é pedinte”, conta Yuri.

“A gente está oferecendo um produto. Você ganha a arte e a poesia, em troca você pode contribuir com o que vier do seu coração. Não é esmola”, complementa Lucas.

Do amor ao preconceito

Um dia eles entraram no ônibus e uma criança de oito anos começou a chorar achando que era um assalto. Yuri conta que o abraçou e explicou à criança o que estava fazendo ali.

Lucas comenta que há quem os ofenda e os mande se calar. “Uma frase típica é ‘vai trabalhar vagabundo’”, conta o jovem.

A dupla compartilha que apesar desses problemas e preconceitos, eles chegam sorrindo, cumprimentando normalmente com o seu ‘bom dia’ e falando sobre o amor. Eles tentam focar no público que se mostra aberto, que sorri e entende o trabalho.

“Eu gosto muito de ler livros e isso me ajuda bastante a entender que a vida tem altos e baixos. Tem uma frase que diz ‘as pessoas não são más. Elas só estão perdidas’”, cita Yuri.

Yuri e Lucas se apresentam há um mês nos ônibus de Cuiabá
(Foto: Juliana Alves)

Os artistas esclarecem que escolheram se apresentar nos coletivos da capital justamente por ninguém poder fugir deles. O passageiro está ali e vai ouvir, a não ser que coloque os fones de ouvido.

Eles explicam que se tivessem fazendo o mesmo trabalho em praças, por exemplo, ninguém iria parar para ouvir. Simplesmente passariam sem olhar. Quando entram nos ônibus, é raro perceber pessoas sorrindo, geralmente estão olhando para a janela ou celular.

“Tem uma frase bem assim: ‘Foi uma honra, um prazer imenso, interromper a sua viagem com arte, cultura e principalmente informação. Que deveria ser no mínimo a base de todo coração”, diz Yuri.

Jovens inspiradores

A família de ambos não compreenderam muito bem suas escolhas quando decidiram viver da própria arte. Com o tempo as coisas começaram a mudar em casa, ainda com dúvidas por parte dos familiares, mas ter apoio dos pais faz muito diferença para os jovens.

“É possível sobreviver de qualquer coisa e isso depende inteiramente de você. Eles (pais) começam achando que é só uma fase, que não vai passar de uma brincadeira”, explica Yuri. Aos 22 e aos 17 anos, apesar das próprias dúvidas e incertezas, eles sabem o que querem.

Lucas está no terceiro ano do ensino médio e já se apresenta para outros jovens adolescentes, servindo de espelho. Com um sorriso no rosto, a dupla compartilha a história de um rapaz de 16 anos, que após conhecê-los, demonstrou ter um talento natural para a arte.

“A gente tem que tomar cuidado com a nossa imagem, com o que a gente faz e passa. É muita responsabilidade. Eu trabalho no ônibus, a gente nunca sabe para quem vamos servir de espelho diariamente. Podemos encontrar um cara que é desenhista e ele ao ouvir a gente falando que da para sobreviver da própria arte pode fazer ele acreditar no próprio sonho”, comenta Lucas.

Ele declara se sentir feliz quando percebe que pode iluminar outra pessoa, que pode servir de inspiração. O jovem espera que a sociedade passe a acreditar e a incentivar os artistas locais e seus trabalhos. “Aqui não é forte porque o pessoal não acredita ou valoriza tanto”.

Entre tantos projetos, Yuri comenta que sempre encontra jovens que ele conheceu e eles compartilham suas vidas, seus sonhos e que estão concluindo os estudos. “A arte da um sentido. Dinheiro é o menos importante. Estude, conheça e saiba. A sabedoria e o conhecimento são muito importantes”, comenta Yuri, com um sorriso no rosto.

 

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8 COMENTÁRIOS

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  1. Já ou no ônibus gostei muito para,

  2. Alguém tem o contato deles e pode passar?? Gostaria de convida-los para se apresentar na UFMT.

  3. Alguém tem o contato deles e pode passar?? Gostaria de convida-los para se apresentar na UFMT.

  4. Só progresso pra essa turma, aqui tem informação e informação de qualidade! Telente pra dar e vender. sucesso!

  5. Só progresso pra essa turma, aqui tem informação e informação de qualidade! Telente pra dar e vender. sucesso!

  6. SÓ ORGULHO

  7. Eu simplesmente adoro eles❤️ Se eu pudesse eu pagava para eles entrarem no busão que pego todos os dias

  8. Esses meninos tem talento, informação, são inteligentes e ainda vão longe. Eu acredito em vocês gurizada. Fé!!

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