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MEIO AMBIENTE

Crescimento favorece aumento do calor em Cuiabá mais que o aquecimento global

Geógrafo diz que temperatura cresce na capital verde por intervenções na infraestrutura, que intensificou nas últimas décadas

Reinaldo Fernandes

Repórter

08/06/2019 14h02 | Atualizada em 08/06/2019 16h17

Crescimento favorece aumento do calor em Cuiabá mais que o aquecimento global

Reprodução/Internet

O calor em Cuiabá é contado pela maioria dos dias do ano, e nos últimos anos é cada vez mais comum a opinião de que nos períodos mais propícios à secura, a temperatura tem subido ao ponto de gerar epíteto de clima desértico. A resposta para isso, também quase comum, é que o aumento da temperatura está ligado à situação global do planeta, a caminho do superaquecimento.



Alto lá! A conjectura é não consenso dentre especialistas na área. O professor de climatologia da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), geógrafo José Carlos Ugeda Jr., diz que não descarta que o planeta esteja em processo de aquecimento nas últimas décadas, mas não há dados científicos para apoiar uma afirmação categórica.

“O clima é dinâmico, sempre mudou e continua a mudar. Em graus diferentes de um período glacial para outro, aqui estamos falando em intervalo de milênios, e também na transição de um período glacial para outro, intervalo de décadas até de século. Mas, o que acontece hoje já aconteceu no passado, com pequenas variações”.

Ele concorda que o calor pode ter aumentado em Cuiabá num ano e outro e a explicação está no crescimento da cidade. O geógrafo  observa que a concentração de pessoas na área



"Dinamismo do clima não autoriza a opinião de superaquecimento"

urbana, a perda da vegetação e o uso mais acentuado de material na construção civil influem no clima local; mudanças que começaram a se intensificar em Cuiabá a partir da década 1970, com o boom populacional.

“Se você colocar a mão na parede sua casa, ao final do dia, do lado em que o sol se põe, você vai perceber que a parede está quente, isso porque o tijolo usado hoje tem baixa impermeabilidade do calor. O adobe, material usado na maioria das casas cuiabanas tradicionais, não sofre isso, ele se mantém resfriado numa mesma situação. Agora, acrescente a telha de fibrocimento, a falta da árvore no quintal, típico de Cuiabá. A incidência do sol é bem maior hoje”.

O professor afirma que estudos científicos mostram que a intervenção no ambiente por cidades em expansão fazem aumentar a temperatura no local, acima de 5 graus. A menor “impermeabilidade” do ambiente aos raios solares somada a materiais artificiais que retém calor, propagam a onda de calor para áreas com menos resistência.

Em Cuiabá, já foi detectada variação de oito graus entre a região do Parque Mãe Bonifácia, de área de mata, e o centro da capital, formado por longas avenidas e edifícios, à base de concreto.

“Disso dá para falar sem dúvida, que a intervenção no ambiente eleva a temperatura local. A região do bairro Pedra 90 é um ótimo exemplo. A temperatura no centro do bairro, que é populoso, é maior que nas faixas do entorno, onde há residências rurais”.

Outro dado usado para apoiar seu argumento é de que a temperatura aumentou 0,4 grau nos últimos 180 anos, uma variação que não autorizaria a afirmar que o planeta está a caminho do superaquecimento.

“Mesmo com toda intervenção feita no ambiente neste período, a temperatura se elevou apenas 0,4 grau. Não é uma variação que possa ser atribuída à ação humana, porque houve variação semelhante em outros períodos, sem a intervenção de ações artificiais”.

Em Cuiabá, os picos que chamaram a atenção ocorreram em abril 2016, ano em que, por três dias seguidos, os termômetros registraram temperatura de 41° C. No ano seguinte, a máxima foi de 40°C. Em 2019, até o início de junho, a temperatura foi registrada na tarde de 17 janeiro, 36,3°C – dado do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

A geografia social

O professor José Carlos Ugeda Jr. diz que já foram identificados em Cuiabá “bolsões” de calor, em que a temperatura é mais elevada que outras áreas. A explicação para a variação interna está no aspecto social.

Os bairros com planejamento apropriado possuem terrenos maiores, áreas verdes e outros mecanismos para repelir a concentração de calor.

“Nas áreas de residenciais de alta classe o calor é menor que nas áreas de periferias. São planejadas com terrenos maiores, ou seja, tem maior circulação de ar, as casas são mais espaçosas, diferente das áreas de periferias, onde há concentração de gente, e as casas com material que absorvem mais o calor”.

A explicação também é válida para os residenciais verticais, localizados em áreas menos habitadas, com apartamentos com mais latitude.

“Perda da vegetação com derrubada para obras da Copa do Mundo não explica sozinha o aumento da temperatura, mais é um dos fatores, porque a cidade passou a ter mais concreto exposto. O que precisamos é de planejamento para preservar a vegetação, algo importante para qualidade de vida. Mas, a preservação ambiental esbarra na política por questões imobiliárias”.

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