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INCLUSÃO DIGITAL

Deficiente visual é instrutor de informática e sonha em cursar direito

As adaptações para os deficientes visuais são apenas auditivas, um leitor de voz que traduz todas as ações cometidas no aparelho.

Juliana Alves

Jornalista

10/03/2019 16h30 | Atualizada em 10/03/2019 14h34

Deficiente visual é instrutor de informática e sonha em cursar direito

Juliana Alves/CMT

Existe uma certa ideia de que deficientes visuais são limitados, mas pessoas como o Alex Francisco, 29 anos, provam o contrário. Ele perdeu a visão aos cinco anos de idade, é instrutor de informática no Instituto dos Cegos de Mato Grosso (Icemat) e sonha em cursar direito tributário.

Devido a um descolamento de retina, talvez hereditário de seu pai, Alex perdeu a sua visão em 1994. Ele explicou que por tudo ter acontecido ainda na infância, o processo de readaptação foi mais fácil, algo mais tranquilo.

Natural de Campo Grande (MS), ele conheceu o Icemat em 1997 ao se mudar para Mato Grosso. “Logo que cheguei por aqui,os meus familiares já buscaram se inteirar sobre o Instituto dos Cegos, se tinha e onde ficava localizado, para que eu pudesse retomar meu processo de estudos e reabilitação”, explicou Alex.

Atualmente ele é o instrutor de informática do Icemat. “Eu tive minha primeira passagem no curso de informática em 2010, num curso itinerante, depois eu fui concluir meu estudo através do ensino médio. Em 2012, tive oportunidade de administrar um curso de informática básica, numa parceria do Instituto com o Senai, na época. Em 2013, assumi a sala de aula como instrutor de informática, e depois me afastei, voltando em 2018 para essa mesma prática”.

Alex contou que tem como desafio a reestruturação do conhecimento e parte de seu objetivo é ser um multiplicador da evolução tecnológica para seus colegas que também são deficientes visuais. “Em 2010, 2012 as pessoas falavam muito e estavam muito focadas na área de computador, hoje nós temos, além de disso, temos aparelhos telefônicos que também compõem esse grupo de tecnologia assistida”.

Alex Francisco é instrutor de informática no Instituto dos Cegos de Mato Grosso

Ele explicou ao Circuito Mato Grosso que as adaptações para os deficientes visuais, nos computadores, são apenas auditivas, um leitor de voz traduz todas as ações executadas no aparelho. “O conjunto é o mesmo. É composto por um monitor, teclado, CPU, estabilizadores, mouse, porém, todos os nossos comandos são aplicáveis ao comando de teclas”.

De acordo com Alex, eles trabalham com um software com a sigla NVDA (NonVisual Desktop Access - acesso à área de trabalho para pessoas sem visão, em tradução livre) que é o leitor de voz nos computadores. “Quando falamos em capacitar os colegas, em oportunizar o acesso à inclusão digital, pensando no mercado de trabalho, nós esbarrávamos em uma situação que era a adaptação dos software das empresas ou dos órgãos públicos; porque, até então, o que tinha de mais inovador para nós era um software pago, que tem um valor significativo para ser investido”.

O NVDA é instalado de forma gratuita e Alex aponta que os colegas que entendem de desenvolvimento e de programação conseguem realizar aprimoramentos e melhorar o programa para que fique 100% acessível ao sistema operacional.

“Então, esse é o objetivo, oportunizar o acesso à inclusão digital das pessoas cegas com o NVDA, e também ser o multiplicador dessa informação ao setor empresarial e público. O investimento, hoje, em software para oportunizar a uma pessoa com deficiência visual de ter acesso à internet é de custo zero. E as pessoas que têm mais afinidade ou curiosidade com a era tecnológica, têm um pouco mais de facilidade, têm um público que é um pouco mais conservador. Em plena era de conhecimento na inclusão digital todos têm que buscar se inserir nesse contexto”, declarou Alex.

Durante a conversa com a equipe do Circuito Mato Grosso, Alex demonstrou como funciona o seu acesso ao computador. Antes de iniciar a gravação do vídeo abaixo, ele foi apertando comandos no teclado até colocar a velocidade da voz do jeito que prefere, acessou o site do Circuito e ouviu uma das notícias. Ele explicou que os deficientes visuais ler a notícia na mesma velocidade que uma pessoa com visão.

O sonho de tributarista

Além do interesse pela informática, uma de suas vontades é cursar uma graduação em direito e se especializar na área tributária. “É uma área muito extensa e eu tenho dois viéses para o caminho do direito. A prioridade número um é ter uma boa base, pensando em uma preparação para ter estabilidade através do serviço público. A segunda prioridade é que eu percebo que a área tributária é pouco explorada e eu observo que tem um bom retorno, mas que se faz necessário muita leitura, trabalho e dedicação. As pessoas da área do direito se importam primeiramente com um concurso público e quando vão atuar é no direito civil, criminal, familiar, e essa é uma outra área que leva para outro canto e pode ser promissor”.

Alex Francisco relata sobre as dificuldades que o cidadão brasileiro enfrenta para conseguir um emprego, mas que percebe alguns indicadores para a evolução desse quadro. “Nós com deficiência queremos participar desse crescimento não só como ponto de discussão, mas de sermos oportunizados também. E não por ser pessoa com deficiência, mas por sabermos que temos muitos colegas competentes com o perfil profissional independente da sua condição ou da sua limitação física”.

Ele deseja que os deficientes visuais busquem suas oportunidades e acesso ao conhecimento. “Busquem o acesso através do Instituto dos Cegos, que além de ser um direito de vocês, garantido pelo Estado, o Instituto está de portas abertas para recebê-los de forma receptiva e fazer de você um cidadão tão importante quanto o outro, afinal de contas, nossa limitação é apenas visual. Nós continuamos pessoas que trabalham, estudam, consome, pessoas que pagam seus impostos. E esse é o grande legado, nós precisamos de oportunidade e não precisamos de superproteção”, concluiu.

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