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ESPECIAL CUIABÁ 300 ANOS

Centro Histórico representa tensão entre colonial e moderno em Cuiabá

Uma transição precária que se arrasta há meio século, trazendo para os tempos atuais problemas agravados pela explosão populacional a partir da década de 1970.

Reinaldo Fernandes

Repórter

16/12/2018 09h00 | Atualizada em 17/12/2018 07h47

Centro Histórico representa tensão entre colonial e moderno em Cuiabá

Reprodução/Acervo Misc

A demolição da Igreja Senhor Bom Jesus em 1968 para a construção da Catedral Metropolitana Basílica é o marco temporal da tentativa de rompimento da Cuiabá moderna com o vilarejo do período colonial. Uma transição precária que se arrasta há meio século, trazendo para os tempos atuais problemas agravados pela explosão populacional a partir da década de 1970.

De sua descoberta, em 1719, até o fim da década de 1960, o município passou por intermitências de população e sua infraestrutura se espalhou conforme a necessidade do momento. A área convencionada pelo nome “Centro Histórico” é o resquício da Cuiabá colonial.

Ponte de João Gomes que passava sobre o córrego da Prainha, a principal rua de Cuiabá. Hoje, ambos estão soterrados (Acervo Misc)

“Cuiabá tem algumas fases históricas. Na colônia, ela era praticamente isolada do litoral (São Paulo, Rio de Janeiro). Nesse período não tinha estrada, era chão batido, e as comunicações eram feitas através das baleias, etc. Essa situação durou até os anos 1940 do século XX. Com a marcha para o progresso (Marcha para o Oeste), e a mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília (abril de 1960), a comunicação fica melhor”, explica o escritor Moisés Martins Junior.

Ele afirma que nos primeiros dias de descoberta Cuiabá carregou as características do período colonial, com construções modeladas pela arquitetura portuguesa, criadas para acomodar uma população de vilarejo – até o fim de 1960, a capital tinha menos de 60 mil habitantes, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Nas fases seguintes, Cuiabá começar a criar um corpo, saindo do colonial, passando para o de arraial, logo entrando na fase de metrópole. Nessa fase de metrópole, ainda se tinha muita coisas de resquício da colônia, por exemplo, a falta de iluminação. Ela era feita através de peixinhos, que eram amassados para se extrair o óleo e colocar nos candeeiros. Até hoje temos o local que marcou isso, o Beco dos Candeeiros”.

A afirmação como capital

Bondinho instalado na Rua de Cima (Pedro Celestino), local de concentração da elite cuiabana. Foto de 1891 (Acervo Misc)

Moisés Martins explica que Cuiabá se firmou como capital de Mato Grosso somente em meados do século XX, pouco antes da divisão do Estado do seu território ao Sul. A declaração como capital ocorreu na década de 1830, após um hiato de aproximadamente 80 anos, quando a população de Cuiabá caiu por causa da transferência das atividades administrativas para Vila Bela da Santíssima Trindade, em meados do século XVIII.

A região de fronteira de Vila Bela a tornou ponto mais viável para a comunicação com os grupos expedicionários que avançavam a região central do Brasil, em busca de recursos para alavancar as capitanias hereditárias nas regiões mais povoadas do País.

“A condição sanitária precária de Vila Bela obrigou as pessoas que haviam se transferido toda a comitiva bandeirante para lá voltasse para Cuiabá. Logo depois, ela foi declarada capital de Mato Grosso, e os prédios oficiais começaram a ser construídos”, diz Amélia Hirata, superintendente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Mato Grosso.

As construções que formam o Centro Histórico começaram a ser levantadas por volta deste período. Casas geminadas em estilo barroco, construídas a alguns centímetros da rua; ruas tortas e com a largura de passagem de carro de bois. Traços herdados dos patrícios portugueses.

“A Casa dos Auferes onde é o Misc (Museu de Imagem e Som de Cuiabá) que é um ponto central do processo histórico foi construída pelos portugueses a mandado do conselho ultramarino de Portugal”, diz Moisés Martins.

 As ruas de Baixo, do Meio e de Cima

Região do porto até a década de 1920. A navegação é a única ligação do vilarejo do Cuiabá com o restante do País (Acervo Misc)

As atividades de Cuiabá giraram em torno das ruas de Baixo (Galdino Pimentel), do Meio (Ricardo Franco) e de Cima (Pedro Celestino) até o fim da década de 1960. É o circuito social onde persistiu algum índice de população mesmo no período de saída de pessoas da cidade, como nos 80 anos em que os assuntos administrativos eram despachados de Vila Bela da Santíssima Trindade.

A superintendente do Iphan, Amélia Hirata, explica que núcleo de população foi delimitado pelo triângulo de igrejas que ficavam na margem do perímetro – Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Senhor Bom Jesus, e Nossa Senhora do Bom Despacho.

Conforme Amélia Hirata, pesquisas e relatos apontam que a relação entre as três era feita em aspectos socioeconômicos, de distinção dos moradores abastados, que ocupavam a Rua de Cima – o palácio dos capitães generais ficava nesta parte da região-, de circulação de mercadoria e escravos na Rua do Meio e atividade comercial na Rua de Baixo.

“O que constitui o centro de Cuiabá é parte remanescente desse núcleo urbano. Pega o trecho da Mandioca, que já foi de passagem de comerciantes, era nessa proximidade que estava o palácio dos capitães-generais. Os órgãos administrativos começaram a se instalarem na área na volta de Vila Bela. Foi consolidação da área de centro que se formou no século XVIII”.

O núcleo urbano descendente do período de arraial pode ser visto ainda no século XX, com o formato de ruas estreias e pensadas para o tráfego de equipamentos colonial. “A própria estrutura do centro histórico se for observado se vê que não tem nenhum planejamento. As ruas são tortas, as casas construídas juntas da rua, sem espaço para calçadas. É um núcleo que foi crescendo e coisas foram sendo adaptadas para urgência do momento”, comenta Hirata.

“A Igreja Matriz foi demolida, se construiu um prédio enorme que seria para caber a população. Mas, veja bem. Onde essa população vai estacionar seus veículos? Isso não foi pensado porque não foi construída se pensando para frente”, diz Moisés Martins.

O choque do progresso

O prédio da Igreja Senhor Bom Jesus se manteve com estrutura de taipa, construída entre 1739 e 1740, até o fim da década de 1960. Sua demolição foi decida dentro de um projeto de modernização de Cuiabá. A proximidade da capital do País e um conflito político internacional marcaram a entrada de um vilarejo no mapa brasileiro que até então tinha uma vida pacata.

E a característica que Cuiabá arrasta até os dias atuais é a falta de planejamento para uma cidade que tem crescido sem desenvolvimento. O escritor e pesquisador Moisés Martins classifica a situação de “atípica” por causa da escassa compreensão do processo histórico.

Avenida Getúlio Vargas até 1970. Os lugares mais modernos da capital ainda possuem traços nítidos do período colonial (Acervo Misc)

“É preciso levar em conta que Cuiabá está numa situação atípica. Ela não foi planejada, como Goiânia, que nasceu na prancheta. Ela cresceu com desenvolvimento ruim insatisfatório. O crescimento é algo sem controle, o desenvolvimento é algo controlado. Os impactos do crescimento aparecem em Cuiabá até hoje”.

Os impactos estão presentes tanto no centro histórico quanto na irregularidade de 300 bairros criados por invasão e permanecem sem infraestrutura.

No miolo do centro histórico, há prédio com fachada com mais de 20 metros de altura com traços arquitetônicos do século XIX. A existência dele retrocede a um tempo em que teria servido para hotel para um príncipe que passou em visita por Cuiabá. O prédio que abriga a Academia Mato-grossense de Letras, reduto de intelectuais socialmente reconhecidos em qualquer sociedade, também está em situação má conservação. Além do período histórico, ambos têm em comum com outras construções a localidade no Centro Histórico de Cuiabá e todos enfrentam o risco de simplesmente não ter sequer vestígios de existência em algumas décadas – e nem tantas assim.

“A memória da nossa história está se perdendo. Cuiabá toda é parte da história. Temos vários prédios em pontos diversos da cidade que contam a história. Eles estão sendo derrubados para abrir prédios modernos, sem nenhum sentido para a cidade”.

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