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DE ADVOGADO A ESCRITOR

Eduardo Mahon abre o jogo sobre a cultura

Em uma conversa, Mahon apontou suas opiniões e conclusões diante das situações que envolvem a cultura em Mato Grosso

Juliana Alves

Jornalista

15/12/2018 14h29 | Atualizada em 16/12/2018 09h22

Eduardo Mahon abre o jogo sobre a cultura

Juliana Alves

Em entrevista ao Circuito Mato Grosso, Eduardo Mahon falou sobre os aspectos culturais de Cuiabá e de Mato Grosso. Carioca da gema, mas cuiabano de coração, Mahon é formado em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), escritor e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

Mahon lembrou que o Circuito Mato Grosso faz parte na transformação do advogado em escritor. Ele, um homem que sempre gostou de ler, da música e da arte, relata que escrevia artigos de opinião aos jornais A Gazeta e o Diário de Cuiabá. “Começaram a me pedir no Circuito um artigo para o jornal impresso, mas o que eu fazia nos outros jornais eram de cinco ou seis parágrafos. Eu mandei nesse formato para o editor e ele me ligou mandando cortar, pois não caberia no espaço, deveriam ser quatro parágrafos”, conta o escritor.

Relatou que se questionava como iria colocar uma ideia jurídica em apenas quatro parágrafos e confessa que chegou a achar a ideia ridícula, mas tentou. Acreditando que não iria funcionar, escreveu um conto e mandou o primeiro, o segundo, o terceiro e assim por diante.

Certo dia, no supermercado, uma senhora o parou e questionou se ele era o escritor do Circuito e disse “Cara, semana passara eu morri de rir com o seu negócio. Eu adorei, parabéns!”. No mesmo dia um amigo também o parabenizou. “Foi a primeira vez que alguém me deu parabéns por algo que eu tinha escrito. Eu percebi que a beleza, a estética da literatura te da um feedback maior e muito melhor. A relação se torna mais agradável”.

Mahon começou publicando um livro com a sua série de contos em nosso jornal e depois produzindo cada vez mais conteúdo. “Eu escrevia alucinadamente”. Após esse momento de lembranças e afirmar que se identifica como escritor, Eduardo Mahon respondeu algumas perguntas da nossa equipe.

Circuito: O que o senhor pode falar do movimento literário em Cuiabá nos últimos anos?

Eduardo Mahon: É fenomenal! Cuiabá flerta com a vanguarda, desde sempre. Cuiabá foi formada por gente de fora. Gente que veio com tendências diretas de grandes centros. Para se formar o cuiabano também saia da região. Ele recebia gente de fora e ia buscar o conhecimento fora daqui. No século XIX para Portugal e século XX preferencialmente Rio e São Paulo. Dali traziam um frescor.

Até a fundação da UFMT em 70, as pessoas saiam de Cuiabá. Esses influxos, que vou chamar de monções culturais, fez com que Cuiabá se transformasse com os anos. Chegou a um momento, agora na modernidade, que Cuiabá começou a produzir uma resistência ao fluxo excessivo. Nós lutamos para dar uma identidade nova a Cuiabá ao mesmo tempo inserida no contexto nacional, digo isso sobre a literatura, mas resistente de posse das suas próprias características. Isso é difícil! Nós queremos falar de Cuiabá para o Brasil inteiro. O que acontece na literatura hoje é uma tentativa de falar de Cuiabá para o Brasil inteiro.

Circuito: Tem surgido novos escritores na região?

Mahon: Claro! Cuiabá tem vários poréns, mas em termos culturais isso aqui é um ninho. Ao passo que nós temos um João Antônio Neto, aos 100 anos de idade, que participou dos movimentos modernistas em Mato Grosso e está vivo, nós temos o Lucas Rodrigues, com 23 anos, Matheus Barreto, com 25 anos, e muitos outros. É toda uma geração que também está dialogando com outras gerações

Em centros maiores as gerações conversam muito pouco, como Cuiabá é pequena, está todo mundo falando com todo mundo. Cuiabá, em termos de literatura, o que está acontecendo de novo, é uma das cidades mais interessantes do Brasil. Esse fenômeno não está acontecendo em São Paulo, Porto Alegre ou Rio de Janeiro. O que é esse fenômeno? Eu não sei.

Circuito: Qual é o perfil desse pessoal que está chegando?

Mahon: É um perfil contemporâneo, alguns chamam de pós-modernidade. A pós-modernidade tem algumas características comuns que é a fuga do centro, é o encontro das margens, assuntos marginais, a incerteza no lugar da certeza, a intuição no lugar da ciência, o fluido no lugar do sólido. Então, o compromisso desse pessoal novo não é um compromisso manifesto, não escrevemos mais manifestos, não é um compromisso cientificamente apreciável, mas é um compromisso estético. O desencanto, o ceticismo, desconfiança é uma característica comum, mas a mais importante é a paródia. A possibilidade de conversar com o clássico, parodiando o clássico. Não uma imitação vulgar, mas um novo formato, uma nova proposta.  Por exemplo, Miguel de Cervantes fez uma paródia quando escreveu Dom Quixote. Ele estava exercendo todo o humor dele para criticar a literatura cavalheiresca. É uma forma de diálogo com o clássico, mas repensando o final, o método, a estética. Nós estamos mais conscientes do nosso tempo

Circuito: Qual é o papel da Academia Mato-Grossense de Letras nesse movimento em Cuiabá?

Mahon: Eu diria Casa Barão de Melgaço, não falaria Academia de Letras. A Casa Barão de Melgaço é de um lado abrigo do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, que vai fazer cem anos, e foi fundado depois a Academia de Letras. A união dessas duas instituições forma a Casa Barão de Melgaço. O Instituto Histórico é inclinado mais à historia, geografia, estudos de memorias.  A academia, na minha visão, deve ser mais inclinada para a literatura. Do meu ponto de vista, o papel da Casa Barão é ser um pivô, um centro, de fomento de discussão sobre a própria Cuiabá.

A academia e o instituto histórico tem que cuidar do novo, ser uma incubadora para gente jovem. Talvez seja uma visão minoritária, uma visão minha. O grau de vanguarda que eu quero, acho que é muito maior do que qualquer conservadorismo. É como diz a música do Belchior, “Como nossos pais”, ainda que sejamos como nossos pais, o novo sempre vem. Não adianta ser conservador, uma hora você será ultrapassado. O papel da Casa Barão, a meu ver, é ser uma incubadora de projetos novos, de novos talentos.

Circuito: Ao mesmo tempo em que temos novos escritores surgindo o povo brasileiro tem lido muito pouco, de acordo com as pesquisas. As escolas e universidades têm cumprido seu papel?

Mahon: Não! A universidade, do meu ponto de vista, se cristalizou em uma endogamia. A Universidade Federal para ela mesmo.  A UFMT cresceu demais e é pouco solidária e interessada no que esta acontecendo dentro dela mesma. Absolutamente encastelada no Coxipó, parece que é a Universidade Federal do Coxipó. Ela demorou anos para estender um campus em outra cidade. Como ela dialoga com a sociedade? Os lançamentos de livros da UFMT são para 30 pessoas. Os eventos mais sofisticados lá dentro são para 20 pessoas, com raras exceções como a orquestra. A cultura ali é muito distante.

A Unemat faz um grande papel de integradora. A Unemat esta fazendo uma revolução educacional no interior. Nós estamos formando bondes literários, colocando autores dentro de um carro e indo aos vários campus da Unemat fazer lançamento de livro. Dentro do Instituto de Letras da Federal quando lança livros são 30, 40 pessoas. Quando o lançamento de um livro é em uma cidade do interior, o diretor de letras cancela as aulas e temos um público de 400 pessoas. Eles prestigiam o autor, eles sabem que aquele evento é mais importante que uma aula. A Unemat está sendo nosso porto seguro para escritores.

Eu quero que todo mundo valorize o que fazemos aqui, esse é o apelo de todo escritor. As coisas que são produzidas aqui são de altíssima qualidade. O cuiabano precisa voltar ao antigo hábito do século XVIII, garimpar. Se garimpar eles nos encontram e nós queremos se encontrados.

Circuito: Ainda falando da cultura, mas saindo dessa parte literária, percebemos que no folclore, na cultura típica, poucos grupos se destacam e são conhecidos. O que o senhor pode falar sobre isso?

Mahon: Eu acho que na música os artistas sofrem mais do que na literatura. Na música e no cinema, pois são mais difíceis. Nós temos pessoas que tem posições de comando como prefeito e governador que não nos valorizam.  E que se não nos valorizam, não se valorizam também.

O folclore é um museu. O folclore é a cristalização da cultura. A cultura é um ser vivo, folclore é um ser vivo, mas um recife de coral, duro. As músicas tradicionais o jeito de dançar já é definido, a cristalização cultural. A cultura é viva, ela respira. Em 2008 o lambadão estava de um jeito, em 2013 era outro e 2018 outro. O funk muda. O rasqueado pode ser que não mude tanto. Tudo que se cristaliza não será executado de outra forma, por isso se chama folclore. Eu prefiro o novo da cultura. O folclore são as costelas, a cultura é o coração que bate.

Circuito: O que o senhor acredita que falta para que a cultura local seja expandida e chegue ao conhecimento do próprio povo, país e quem sabe o exterior?

Mahon: Governo! O que nos vivemos nos últimos anos foi o maior pauperismo cultural da história de Mato Grosso. Foi o maior desamparo cultural da história de Mato Grosso. Não houve nenhum outro governo, na República nova, a partir de 1988, que foi tão ruim quanto esse. O gestor entendeu por bem que o cuidado com os aparelhos culturais e com a cultura em geral deveria ser terceirizado para empresas. Isso é fatal para a cultura! “Senhores, está aberta a licitação, aberta a concorrência, apresente seus projetos culturais. Estamos aqui para paga-los”, é o que eles falam.

As secretarias de cultura estão terceirizando aquilo que é responsabilidade delas. Como política pública é necessário lançar uma coleção literária. Política publica é a secretaria fazendo. O que ela faz agora? Quem que lançar um livro inscreva-se, vamos montar avaliadores, etc. Então terceirizou e isso é fatal para a cultura. Um empresário da cultura quer lucro, ele não vai pagar 10 mil ao artista.

Nós somos um povo pobre financeiramente, somos pobres culturalmente. Falta política pública. A cultura não é um gênero essencial na visão do governante. É um desvalor completo, por isso estamos assim.

Circuito: No audiovisual, o cinema brasileiro tem crescido e de dentro da UFMT têm surgido cada vez mais produtos. Você tem acompanhado? Tem alguma opinião?

Mahon: Tenho! Lá tem o Maual que é fenomenal! Nós temos grandes diretores aqui em Mato Grosso. Temos o cuidadosíssimo Bruno Bin, o conceitual Luiz Marchetti para o lado do experimentalismo e outros. Nós temos potencial! O grande problema é que a gente não se descobre. O shopping não passa o filme produzido aqui. Não passa o filme que o Bruno está fazendo com o Bruno Gagliasso, que é um filme nacional em parceria com a Globo Filmes. Eu não sei se cuiabano não gosta de cuiabano, mas eu acho que governante não gosta de cuiabano. Os governantes preferem algo de fora. O Blairo Maggi passava as férias em Florianópolis. E eu já vi prefeito da capital viajar no dia 8 de abril.

Eduardo Mahon também comentou sobre as artes cénicas em Mato Grosso, relembrando que uma peça em Cuiabá foi a primeira do país a receber uma critica. Ele defende que existem muitos produtores, muita gente fazendo seu trabalho artístico, mas sem condições de incentivar financeiramente, para obter um retorno e reconhecimento. “O teatro mato-grossense tem uma larga tradição”, relatou o escritor.

“Esculhambam com a lei Rouanet com e sem razão. O artista virou mendigo. Em Mato Grosso muita gente está desaparecida. Os artistas estão mais desaparecidos que o mico leão dourado”, finalizou.

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