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PEDRA 90

Bairro luta contra estigma da violência e anseia por melhorias

A solidariedade e o desejo de mais infraestrutura marcam a vida dos 120 mil moradores de uma das regiões mais distantes do centro da capital mato-grossense

Catia Alves

Jornalista

15/03/2018 07h30 | Atualizada em 18/03/2018 20h52

Bairro luta contra estigma da violência e anseia por melhorias

Ilustração

Para ir até o bairro Pedra 90 o percurso é longo. De carro, em um dia sem trânsito, os 20 quilômetros que separam o bairro do centro da capital tomam em média 25 minutos. Mas a comunidade geralmente usa o transporte público, o que pode levar até uma hora na melhor das hipóteses. É quase uma viagem para outra cidade.



Essa distância acaba por facilitar o abandono da população mais carente deste bairro, que vive bem distante dos olhos da opinião pública. Em uma rua sem asfalto, cheia de buracos, sem calçadas e muitos terrenos abandonados está um pequeno barraco erguido embaixo de uma majestosa mangueira. Parece um acampamento de criança, mas é ali que mora o morador mais antigo do Pedra 90, Adelicio Luiz da Cruz, de 70 anos, mais conhecido como seo Delicio ou Fumaça.

Seo Delicio (Foto: CMT)

O seo Delicio é natural do Estado de São Paulo e contou ao Circuito Mato Grosso que chegou a Mato Grosso em 1983, para trabalhar na construção civil. Debilitado por doenças e sem muita memória, o morador murmura algumas palavras com dificuldade.

Fumaça tem os olhos avermelhados como de alguém que enfrenta uma irritação de poeira constante. Sua casa abriga apenas uma pessoa deitada, o que o obriga a passar o dia embaixo da árvore, apesar do convite que ele insistia em fazer para que a reportagem conhecesse a sua “casa”. 



Sentado num caixote de feira, ele conta um pouco da sua história, o próprio retrato do bairro, erguido para abrigar trabalhadores das obras de engenharia civil do Centro Político Administrativo (CPA), na década de 1980, um período no qual ainda não existia o populoso Pedra 90 e seus 80 mil moradores.

 “Quando eu cheguei, a população era pouca, com o tempo uns foram saindo, mas a quantidade de gente que chegava era bem maior e assim o bairro foi crescendo”, comenta seo Delicio.

Relembra que o bairro não tinha muita estrutura, faltava o básico para que os moradores pudessem ficar no local. A luta por mínimas condições de vida, como o acesso às redes de água e esgoto, energia, asfalto e transporte levaram muitos embora, mas, mesmo assim, alguns, como seo Delicio, resistiram e continuaram morando ali.

“Energia não tínhamos na época, isso era o de menos, o problema mesmo era a água, não tinha no bairro, tinha carroceiros que vendiam para os moradores”, relembra.

A região hoje chega a abrigar 120 mil moradores, e a 55ª seção eleitoral é uma das maiores do estado. Não é à toa que o atual governador, Pedro Taques, diz, orgulhoso, ter sido o mais votado ali. O bairro está localizado na região sul da cidade. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são mais de vinte bairros que formam  o Grande Pedra 90, que engloba o Industriário, I  Nova Esperança I, II e III, Manduri, Cinturão Verde, Vista da Chapada, Voluntários da Pátria, Sonho Meu, entre outros.

Baiano, presidente do bairro Pedra 90. (Foto: CMT)

Com três décadas de história, a realidade social do Pedra 90 ainda é de desigualdade.  As famílias que ali vivem são de pessoas simples e de origem humilde. O líder comunitário Antônio Marcos Nascimento Lemos, popularmente conhecido pelos moradores como “Marco Baiano”, é morador há 25 anos do Pedra e há 16 anos ocupa o cargo de presidente do bairro e porta-voz da comunidade. Ele se autodenomina o responsável por buscar melhorias para as necessidades locais. 

Baiano nos relata como foi o processo de povoamento local. Nas palavras do líder comunitário, o surgimento começou em 1989, sendo que as primeiras famílias foram assentadas na região em 15 de março de 1992.  Na época uma força-tarefa foi realizada para abertura das primeiras ruas do bairro, que não tinha condições para ser habitado.

“O Pedra 90 foi construído de forma irresponsável, pois não havia estrutura, faltava luz elétrica e também rede de esgoto”, diz Baiano.

O incentivo para atrair pessoas para o local foi à doação de terrenos. Os moradores recebiam lotes e parte uma ajuda de materiais, tijolos e telhas para construção das casas.

“Eu não fui beneficiado com esse incentivo, eu trabalhei e comprei meu lote, paguei muito barato, ele me custou uma média de 200 reais”, lembra o líder da comunidade.

Baiano diz que ainda em meados de 1998 todas as famílias da comunidade pegavam água na única praça que tinha no bairro. O processo era igual ao praticado na Cuiabá do século XIX, quando apenas um chafariz era usado para encher recipientes que eram carregados pelos moradores para abastecer as casas. As famílias viveram assim por quase vinte anos, até finalmente receberem água encanada em casa. Alguns chegam a dizer que só receberam água em casa a partir de 2000...

“Eu saía com um tambor de 200 litros de água, empurrando e distribuindo para os vizinhos, nós pegávamos água numa biqueira”, diz.

Antes de virar bairro, o Pedra 90 fazia parte da propriedade do Sr. Nilton Rabelo de Castro, que na época (sem data e ano) tinha uma dívida com o Executivo estadual e usou suas terras para pagamento. A terra adquirida virou o bairro criado pelo governador Jayme Campos.

“Quando o bairro surgiu, ele começou como um loteamento na gestão do governador Jayme Campos, que tinha uma parceria com o Sr. Nilton Rabelo de Castro. A área era muito boa e ele [Jayme Campos] tinha uma visão de um grande bairro na distância de 29 km de Cuiabá. Quando foi lançado, em 1989, o bairro saiu com o slogan do Jayme, mas só foi documentado em 1991”, conta Baiano.

Foto: Diário de Cuiabá 07-01-1990

Na época, o slogan do ex-governador era “Pedra 90”, que significava que ele era a “pedra” da vez naquela eleição e que iria “batizar” um conjunto de bairros em Cuiabá. A expectativa era a criação de 90 novos bairros em quatro anos de gestão, o que nunca aconteceu.

Mesmo durante a sua fundação, o risco de não atrair moradores era grande, pelo fato de ficar longe do centro de Cuiabá. Porém, ao ser criado com o sonho de dar moradia a quem precisava, esqueceram-se das necessidades básicas e as famílias foram obrigadas a entrar em suas casas sem as condições mínimas para habitá-las.

Hoje, o Pedra 90 já dispõe de muitas ruas com asfalto (de baixa qualidade) e rede de esgoto, mas ainda está longe da infraestrutura ideal. São oito escolas municipais e três estaduais, seis Posto de Saúde da Família (PSF) e uma policlínica, uma praça e um Poupa Tempo recém-inaugurado. O bairro também conta com um Centro de Referência de Assistência Social (Cras), 35 km de asfalto, um Centro Integrado Infantil, além de obras previstas como duas escolas-modelo e uma base da polícia.

Além da falta de infraestrutura a fama de violento, é um dos problemas da região (ler reportagem especial o caderno Panorama pg. 3). “Ele nasceu muito populoso, com 10 mil lotes, e eu acho que isso foi um risco muito grande e por isso nosso bairro ficou famoso pela violência”, conta Baiano.  

“Quando morre gente no bairro Boa Esperança, falam que é no Preda 90, morre no Cabral falam que é no aqui, Industriário, então sempre somos usados como referência para ponto de crimes, o que nem sempre é verdade”, explicou Baiano.

A enfermeira Isadora Ribeiro também concorda que existe um mito sobre a criminalidade na região. Isadora revela que o Pedra 90 é lugar de pessoas humildes, trabalhadoras, e para ela dizer que o bairro é perigoso é apenas uma invenção. “Isso não existe na proporção que é dita na cidade”, diz.

A enfermeira conta que sempre sonhou em atuar na região. Sua primeira atuação depois de formada foi trabalhando na policlínica do Pedra 90 e durante este período sua atuação foi pelo tempo de nove meses.

De acordo com a enfermeira, com a saída de uma profissional da unidade de saúde, foi possível conseguir a vaga tão desejada para atuar no bairro.

 “Eu sempre idealizava atuar no Pedra 90, não sei por que, mas sempre quis ficar aqui e com a saída de uma enfermeira da unidade de atendimento tive essa oportunidade e não pensei duas vezes: fiquei com essa vaga”.

Para a enfermeira é a humanidade das pessoas que a atraiu para o Pedra 90. “Esses comentários não existem, aqui as pessoas são boas, trabalham bastante, são dignas e o bairro não é esse grande perigo, estou sempre aqui e não vejo tanto risco e perigo”, relata a enfermeira.

É a enfermeira quem cuida da saúde do morador mais antigo do bairro, seo Delicio. O idoso é exemplo da solidariedade do Pedra 90. Sem familiares, todos no bairro afirmam que cuidam dele e impedem que “Fumaça” seja alvo de violência. Os vizinhos também garantem que haja, de alguma forma, alimento na moradia improvisada de Delicio.

Foto: CMT 

Preconceito dificulta acesso à rede bancária

Quando falamos de Pedra 90, as pessoas relacionam o bairro com a criminalidade e a violência. Com quase três décadas de existência, o bairro ainda sofre com problemas existentes desde seu processo de criação. Água, luz elétrica e rede esgoto são uma realidade no Pedra 90, porém o líder dos moradores argumenta que os serviços deixam a desejar na qualidade.

Esse preconceito traz inúmeros prejuízos, inclusive a ausência de redes bancárias na região.  Isso faz com que os moradores do bairro enfrentem problemas para fazer transações financeiras básicas, pois até hoje não existe nenhuma agência bancária no bairro, nem casa lotérica.

Quem precisa realizar depósitos, saques ou qualquer outro tipo de transação bancária tem que se deslocar até o centro da cidade.

O empresário que acreditou no potencial do Pedra 90

O empresário Edilson Teixeira Ramos enxergou prosperidade e oportunidades no Pedra 90.  Há 18 anos ele abriu um negócio no ramo de pecuária no local, na avenida principal do bairro, a Nilton Rabelo de Castro, sua área comercial por excelência.

“Na época eu percebi que o bairro ia crescer muito, tinha muitas pessoas morando aqui e ter um imóvel seria barato. Fiz um investimento no passado e hoje estou colhendo os frutos”, relata o empresário.

O comerciante relata que nunca sofreu um assalto desde que seu empreendimento foi inaugurado e que nunca se sentiu ameaçado no local.

“A segurança do bairro está relacionada com o contexto geral do país, temos jovens que não podem trabalhar porque determinadas leis proíbem, mas isso é um atraso, vejo carros chegando aqui na base da polícia, a gente pensa que é um bandido e são jovens que poderiam estar trabalhando ou estudando”, conta.

Foto: CMT 

Eternizada numa estátua de bronze

Poucos sabem, mas uma das mulheres mais velhas do mundo foi uma ilustre moradora do Pedra 90. Conhecida como orgulho do bairro, Ana Martinha da Silva era filha de escravos, nasceu na comunidade de Barreiro, município de Chapada dos Guimarães, no dia 25 de agosto de 1880, conforme certidão de nascimento registrada no cartório chapadense. O pai era Martinho Fernandes da Silva.

Conhecida como a mulher mais velha do Brasil, ela chegou a entrar para o Guinness Book (Livro dos Recordes) como a mais velha do mundo. Os documentos dela estavam no Reino Unido, onde eram analisados para inclusão no Guinness Book. Seu trabalho foi como cozinheira até os 103 anos, numa fazenda de Várzea Grande.

Ana Martinha era filha de escravos, presenciou a libertação dos negros no Brasil. Durante os séculos de vida, foi memória viva da história da Baixada Cuiabana e do Brasil. Quem conviveu com ela a descreve como uma mulher lúcida, com saúde e boa memória, que passou os seus últimos dias no Pedra 90.

Atualmente, a única praça do bairro Pedra leva o nome de Ana Martinha da Silva e ali há uma estátua de bronze em sua homenagem. A obra foi confeccionada pela artista plástica Esterlita Cecília Rodrigues, formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo e pós-graduada pelo Museu de Arte Contemporânea.

Ana Martinha faleceu em 2004, aos 123 anos, um mês antes do seu aniversário.  Na época de sua morte, seu corpo foi velado na Rua 50, quadra 211, casa 05, no Pedra 90, seu enterro foi no Cemitério Bom Jesus no Parque Cuiabá. Hoje, ela faz parte das memórias do bairro.

Vitimas de violência contra mulheres ganharam casas na região

Com o desenvolvimento do Pedra 90, na época foi criado o bairro Voluntários da Pátria, uma parceria com o 9º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) para abrigar os soldados e oficiais da época. Porém pela distância, a área foi cedida para mulheres vítimas da violência doméstica ou que estavam saindo do sistema prisional, e para moradores que haviam perdido suas casas em enchentes.

Essas pessoas foram levadas para o Pedra 90, porém hoje o local leva o nome de bairro Voluntários da Pátria. Mulheres que estavam no período de risco, que estavam sendo ameaçadas e a Justiça as afastara dos respectivos companheiros para que não sofressem violência, eram levadas para lá, segundo Baiano.

Ele conta que infelizmente a violência contra a mulher no bairro ainda é muito presente. Segundo ele, uma semana antes da realização desta entrevista, um homem “brincando” com sua companheira de roleta-russa, teria dado um tiro em sua cabeça, outro teria matado a parceira a facadas e, num terceiro caso, a esposa matou o companheiro por estar cansada de sofrer violência doméstica. Isso tudo em um período de 15 dias.

“O homem precisa respeitar a mulher. Nós temos que conscientizar os moradores, e fazemos isso através de ações assim. Para conscientizar que as mulheres precisam de respeito. O Pedra 90 tem que ter um resultado de conscientização, de investimento, de acompanhamento, de prevenção de verdade. Não só na época do Dia Internacional da Mulher, mas todos os dias”.

O JOGO - * Roleta-russa é um jogo de azar em que os participantes colocam uma bala – geralmente apenas uma – em uma das câmaras de um revólver. O tambor do revólver é girado e fechado, de modo a que localização da bala seja desconhecida. Os participantes apontam o revólver para suas cabeças e atiram, correndo o risco da provável morte caso a bala esteja na câmara engatilhada.

Pedra 90 é o maior colégio eleitoral de MT

Foto: Reprodução 

O bairro abriga uma das maiores zonas eleitorais de Cuiabá, a 55ª. Por condensar um grande número de eleitores, a região é um verdadeiro atrativo para a classe política que visita o Pedra 90, sempre na época de eleições, com promessas de prosperidade e investimentos básicos no bairro. Porém, muitas dessas promessas até hoje não se tornaram realidade.

A menina preciosa que decide campanhas e elege poderosos ainda segue em agências bancárias. Os 14 quilômetros de asfalto entregues em 2015, na gestão do prefeito Mauro Mendes junto com o governador Pedro Taques, em novembro de 2015, são apenas uma parte do que foi considerado pelos mesmos como um urbanização total do bairro.  “Fizemos o compromisso de asfaltar 100% o Pedra 90 e hoje estamos entregando a última parte. Quero agradecer aqui a todos nossos parceiros, governador, secretários, vereadores e todos aqueles que ajudaram a administração nessa conquista. Vamos continuar trabalhando com seriedade pela cidade de Cuiabá e investindo para dar retorno ao cidadão”, afirmou o prefeito à época.

Infelizmente, a realidade do Pedra 90 é muito diferente do discurso. Além de possuir uma estrutura asfáltica de qualidade ruim que requer atenção, os pedestres não têm calçadas em muitas ruas para andar em segurança, água de qualidade é uma necessidade sempre mencionada pelos moradores e basta um giro pela região para encontrar muitas ruas sem asfalto.

Além disso, os moradores ainda aguardam a instalação das prometidas agências bancárias.  Enquanto isso, todos precisam se deslocar até centro para buscar por esses serviços. Um trajeto que pode durar mais de uma hora se for feito via transporte público.

“Tudo que já temos é um ganho muito grande para essa sociedade que era e é discriminada. Eu ouvi de muitos políticos que um bairro nessa distância não deveria nem existir. Hoje é a menina dos olhos de políticos, mas são poucos os que fazem algo pelo bairro”, criticou o líder do bairro, Antônio Marcos Nascimento Lemos, morador da Rua 10.

“Foram muitas gestões de políticos e a gente sempre esteve em cima cobrando o que a população precisa. Muitos políticos fizeram barulho que iam trazer as coisas, mas era tudo mentira. Nós acabamos perdendo o que nós tínhamos”, conclui.

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FONTE: Carlos Celestino



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