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SOLIDARIEDADE DE FATO

Conheça as casas de apoio aos deficientes

Neste espírito de final de ano, uma escola e uma casa ensinam um pouco sobre amor ao próximo e caridade na forma de acolhimento aos portadores de deficiência

07/12/2017 07h00 | Atualizada em 07/12/2017 22h05

Conheça as casas de apoio aos deficientes

Analu Melo Ferreira

Ao entrar no Centro da Habilitação Profissional Escola Estadual Célia Rodrigues Duque, em Várzea Grande, os olhinhos curiosos dos estudantes brilham por receber visitas. Todo detalhe novo de quem chega é motivo de festa para eles. Seja o colorido da saia, o corte do cabelo, tudo é mágico para esses jovens portadores de deficiências e com uma visão peculiar e meio mágica do mundo. O que parece comum para os outros para eles é sempre novidade.

O CHP, como é chamado pela equipe, foi criado há 32 anos com o objetivo de possibilitar às pessoas com deficiência (ou PCD) atividades escolares e, ao mesmo tempo, prepará-las para o mercado de trabalho. É um ambiente no qual eles aprendem a ler e a escrever por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas também a cozinhar, a fazer artesanato, a reciclar, e ainda praticam esportes, por meio da educação física que é adaptada às suas necessidades. Muitos do grupo são adultos que acabaram ao longo de suas vidas não recebendo os estímulos necessários para desenvolver habilidades como a fala e o aprendizado.

A escola recebe jovens a partir de 15 anos que apresentem algum tipo de deficiência intelectual. Ela pode ser leve, moderada, grave ou severa, e está associada a algum transtorno mental, como esquizofrenia ou psicose. O trabalho é feito por uma equipe multiprofissional que os acolhe e acolhe a própria família, visto que a falta de preparo da sociedade para lidar com essas pessoas afeta não somente o indivíduo e sim todos a sua volta.

Segundo Mariane Regina da Silva, psicóloga, a instituição trabalha com currículo funcional. “Nós trabalhamos o aluno no concreto, no real. Aqui ele tem que pegar a sua roupa e guardar no guarda-roupa, a lavar o tênis, a arrumar a mochila e a cuidar dos materiais”, afirmou. Isso faz com que eles melhorem na socialização, na convivência e se tornem mais independentes.

Volta à sociedade

Além disso, o CHP tem um papel fundamental na escolarização dos estudantes, visto que o déficit de aprendizagem é comum entre eles. Em alguns casos isso ocorre porque a família não está preparada para lidar com a deficiência e acaba automaticamente tirando dessas pessoas a oportunidade de aprender e deixa de dar a eles os estímulos necessários para que desenvolvam habilidades sociais básicas.

“Eu tenho aluno de 54 anos que não sabe ler nem escrever, porque quando se descobriu que ele era PCD a família o escondeu, não o levou para a escola. Ou, quando o levou, viu que ele não aprendia, a escola não estava preparada e ele acabou sendo excluído”, contou Edher Allyson Weber Taveira, coordenador pedagógico.

A solução, conforme Edher, está em introduzir, o mais rápido possível, os PCDs no convívio social e, logo, na escola. “Tive um aluno que chegou desde cedo aqui no CHP, se desenvolveu e sabe ler e escrever e até mesmo andar sozinho de ônibus”, relatou.

Por outro lado, Eliete Gonçalves de Campos Silva, autônoma, é mãe do Samuel, de 19 anos, que sofre da Síndrome de Klinefelter. Essa síndrome resulta em uma alteração genética, que faz com que Samuel tenha um cromossomo X a mais, ou seja, 47 cromossomos, enquanto uma pessoa “normal” tem apenas 46. Dessa forma, os portadores da anomalia, além de algumas mudanças no corpo, têm dificuldades de leitura, de fala e seus movimentos são comprometidos, assim como os de Samuel.

Samuel estudou em uma escola convencional até o 9º ano do ensino fundamental, mas, como reprovou, não pôde dar continuidade aos estudos. A iniciativa partiu do próprio Samuel, que, por meio de uma vizinha, encontrou o CHP e há três anos estuda lá. Eliete percebeu mudanças no filho, em especial no comportamento. “Antes ele tinha muita dificuldade, era muito inseguro e agora amadureceu bastante”, relatou.

Hoje Samuel cozinha, pinta e trabalha. Mas apesar das dificuldades de ter um filho com deficiência, Eliete se sente grata e privilegiada. “Os filhos, quando vêm especiais, é o que Deus nos dá porque sabe que nós vamos cuidar”, disse.

RECURSOS

Atualmente o CHP Escola Estadual Célia Rodrigues Duque recebe fundos da Secretaria de Estado de Educação para a sua manutenção. A verba destinada, ainda que seja uma quantia significativa, é específica e não dá autonomia à administração. “A finança da escola é uma engenharia, nós viramos mágicos porque o dinheiro está engessado e não podemos fazer determinadas coisas”, esclareceu.

O coordenador mostra que outro problema da escola é a limitação do espaço físico, que não pode ser melhorado pela falta de dinheiro. “Nós temos 167 alunos, mas poderíamos atender até o triplo. Eu até tenho duas salas ociosas, algo em torno de 30 matrículas, mas eu não tenho espaço na sala de descanso e o meu refeitório não suporta mais 30”, disse.

Eles fazem, todos os anos, uma festa junina com o intuito de arrecadar recursos para a instituição, que são utilizados para ajudar nas despesas e investir na estrutura. Em algumas ocasiões, os próprios funcionários chegaram a doar dinheiro para auxiliar a escola.

DOAÇÕES

“Pedimos a quem quiser doar alguma quantia à escola que primeiro venha conhecê-la, ver como é o nosso trabalho e para quem ele está doando. Esperamos que se sensibilize e entenda que nós realmente precisamos da doação”, afirmou Edher.

O Centro da Habilitação Profissional Escola Estadual Célia Rodrigues Duque está localizado na Rua Miguel Leite, 266, em Várzea Grande, Mato Grosso. Os interessados podem entrar em contato com a escola pelo número (65) 9977-2149.

As casas das crianças que poucos desejam ao seu lado

Por outro lado, no bairro Pedra 90, em Cuiabá, o que costumava ser uma fazenda de engenho se transformou na casa de 23 pessoas com deficiência cerebral e totalmente incapacitados de viverem sem o apoio de um cuidador. Entre as grandes árvores de mangueira, plantadas há alguns séculos por escravos que ali trabalhavam, estão espalhadas cadeiras de fio nas quais os moradores observam a tarde passar. Longe do barulho da cidade, com o cantar dos passarinhos e o cheiro de mato e calmaria, os residentes das Casas Caminho Redentor vivem em paz.

A história das Casas começou em 1986 quando um grupo espírita começou a acolher e ajudar crianças em situação de risco. Mas eles decidiram, em 1992, receber exclusivamente crianças portadoras de limitações físicas e cerebrais, porque elas são as que encontram maior resistência na hora de serem adotadas. Hoje a instituição cuida também de jovens e adultos, das mais diversas faixas etárias, desde que estejam vulneráveis perante a família.

Ao todo a entidade conta com 22 funcionários registrados com carteira de trabalho, profissionais que se ocupam dos cuidados com os pacientes. A diretoria, no entanto, é composta apenas por voluntários. Eles ainda têm parceiros mensais que doam dinheiro, alimentos, produtos de limpeza, entre outros.

A rotina dos acolhidos consiste em horários para as refeições, como café da manhã, almoço e jantar, e também para o banho. As visitas podem ser feitas até às 16h, visto que qualquer movimento diferente após o horário de recolhimento os incomoda.

Maria Soledade de Souza Amadeo, mais conhecida como Sol, é presidente das Casas Caminho Redentor. Ela explica que o objetivo das atividades realizadas nas Casas é o de envolver os pacientes com afeto. “Nossa missão é assistir, trabalhar com eles da maneira que eles se sintam confortáveis, com um pouco mais de dignidade”, afirmou.

Sol confessa que os diversos casos que a entidade recebe a tocam profundamente. “Apesar de todas as limitações físicas, a pessoa ainda sofrer muitas vezes carência de uma alimentação adequada, de uma higienização adequada, não é fácil”, afirmou.

Eles precisam de amor

Quando questionada sobre o que eles precisam, ela responde, de pronto: “envolvimento amoroso”. “Alguém que tenha um tempo para dar um carinho, que venha realmente vindo, de coração, de alma, que possa sentar no chão para brincar com eles, por exemplo”, contou. Isso porque os moradores das Casas são, em geral, abandonados pelos entes queridos. "Apesar de alguns terem familiares que os visitam com frequência, essa não é a regra geral", explica. "É isso que tentamos surprir aqui, esse amor e acolhida, além dos cuidados essenciais".

Ela afirma que as Casas não passam por privações financeiras, já que os recursos coletados pela instituição vêm de auxílio de terceiros. Sol explica que antes, até 1992, havia um acordo com o poder público, que foi cancelado devido a atrasos nos repasses. “Nós não temos tempo para ficar aguardando”. O dinheiro das doações, segundo Sol, é apertado, mesmo assim é suficiente.

Hoje a instituição recebe, além dos 22 acolhidos, cinco crianças com deficiência que moravam no Lar da Criança, fechado em 2014 após denúncia de maus-tratos aos internos. Por meio de convênio, o município arca com as despesas de saúde, e as Casas com a hospedagem e alimentação.

“São diversas mãos que sustentam a casa, e nós esperamos que ela ainda continue”, disse Sol. “As pessoas que queiram se engajar em um movimento de amor que estejam conosco”, sintetizou.

FONTE: Analu Melo Ferreira

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