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DEZ ANOS DEPOIS

Irmão de mato-grossense vítima de acidente da TAM fala em injustiça

Fabiano Lima Nascimento, fala sobre o sentimento de impunidade após perder o irmão Bruno no acidente com o Air Bus A320 da TAM em 2007

Catia Alves

Repórter

17/07/2017 13h40 | Atualizada em 18/07/2017 07h42

Irmão de mato-grossense vítima de acidente da TAM fala em injustiça

Reprodução/Internet

O sentimento de tristeza e impunidade acompanha o empresário Fabiano Lima Nascimento, nesses dez anos sem o irmão, Bruno Lima Nascimento, morto no acidente com o Air Bus A320 da TAM, em 17 de julho de 2007. “Eu já esperava que ninguém seria condenado”, desabafou ao Circuito Mato Grosso, nesta segunda-feira (17).

“Nós já estamos acostumados com impunidades, então não nos espantamos mais. Ainda mais para esse tipo de crime, que era uma coisa tão notória que foi falha de Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), da empresa aérea, do Governo... Enfim, não me espanto mais”, disse Fabiano.

Bruno Lima Nascimento estava no voo da TAM

Até hoje, nenhuma pessoa foi condenada pela tragédia do voo 3054 da TAM, que deixou 199 mortos. O Ministério Público Federal chegou a acusar três pessoas, mas todas foram inocentadas.

A aeronave, que saiu de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, não conseguiu parar na pista do Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, passou sobre a avenida Washington Luís e colidiu com um prédio da mesma companhia. Todas as 187 pessoas que estavam no avião e outras 12 em solo morreram.

“Era para eu estar naquele avião. Estava tudo organizado, mas como ele [Bruno] estava em viagem para Rondônia e eu estava em Rondonópolis, era mais fácil eu ir do que ele. Mas como ele estava voltando de Rondônia para Rondonópolis então ele já aproveitou o voo, parou em Cuiabá e foi para Porto Alegre resolver [um problema]”, lembrou Fabiano.

Na época, Bruno tinha 21 anos e estava no 5º período da faculdade de Direito. O irmão, que ainda mora em Rondonópolis, contou que a ambição de Bruno era muito grande, e o sonho do irmão era ser delegado.

“Ele tinha planos e uma ambição muito grande, até mais do que eu e meu outro irmão que ficou. Ele cursava Direito e queria ser delegado. Era leiloeiro da Associação Brasileiro dos Leiloeiros Rurais do Brasil. Então tinha uma expectativa de sucesso muito grande e foi tudo por água abaixo”.

O dia do acidente

A notícia chegou pela TV. Fabiano se recorda daquele dia 17 de julho de 2017, quando chegou em casa do trabalho e ligou a Televisão.

“Ligamos para o rapaz que na época acompanhou ele até o aeroporto, e ele disse que ele tinha embarcado no voo certinho. A gente ainda tinha esperanças que ele tivesse pegado o voo errado, essas coisas. Mas, era uma coisa praticamente impossível, ninguém erra o voo, ainda mais ele que era acostumado. Então, foi um desespero. Para mim foi ainda maior, pois eu tive que dar essa notícia para o meu pai e mãe”.

Dois anos após o acidente, a família firmou na Justiça um acordo com a companhia aérea e receberam uma indenização. “Foi um acordo de indenização calculado em cima da expectativa de vida dele e em cima do que ele já fazia. Mas a vida dele não volta”, lamentou.

“A gente sofre, mas o pai e a mãe não tem como... Eles sofrem ainda, principalmente a mãe. Mas como eles são muito religiosos, também um pouco da dor foi amenizada”, contou Fabiano com a voz embargada.

Investigações

As investigações da Polícia Federal sobre o acidente começaram ainda em 2007 e levaram dois anos e meio para serem concluídas. O documento não apontou culpados. A Polícia Federal alegou não ter encontrado nexo de causalidade que vinculasse a tragédia às pessoas que, de alguma forma, tinham responsabilidade sobre o aeroporto, o avião ou o setor aéreo.

Na prática, a conclusão é de que o acidente teria sido causado exclusivamente por um erro dos pilotos do Airbus 320. As caixas-pretas do avião indicam que os comandantes Kleyber Lima e Henrique Stefanini di Sacco manusearam os manetes (aceleradores) de maneira diferente da recomendada. Um deles permaneceu na posição de aceleração, deixando a aeronave desgovernada.

Ministério Público Federal 

Apesar do inquérito, o procurador da República Rodrigo de Grandis denunciou, em 2011, três pessoas pela tragédia: o então diretor de segurança de voo da TAM, Marco Aurélio dos Santos de Miranda e Castro; o então vice-presidente de operações da aérea, Alberto Fajerman; e Denise Abreu, que na época era diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Em 2014, porém, o próprio MPF pediu a absolvição de Fajerman, pois avaliou que não foram obtidas provas suficientes para sua condenação.

A Procuradoria, então, pediu a condenação de Denise e de Marco Aurélio a 24 anos de prisão por atentado contra a segurança de transporte aéreo na modalidade dolosa (quando há a intenção).

Segundo a denúncia, o diretor da TAM tinha conhecimento “das péssimas condições de atrito e frenagem da pista principal do aeroporto de Congonhas” e não tomou providências para que os pousos fossem redirecionados para outros aeroportos, em condições de pista molhada.

O MPF considerou que a então diretora da Anac, Denise Abreu, “agiu com imprudência” ao liberar a pista do aeroporto de Congonhas, a partir de 29 de junho de 2007, “sem a realização do serviço de ‘grooving’ e sem realizar formalmente uma inspeção, a fim de atestar sua condição operacional em conformidade com os padrões de segurança aeronáutica”.

Na época, o criminalista Antonio Claudio Mariz de Oliveira, que defendia Marco Aurélio, disse que "não há nem mesmo meros indícios de que alguma pessoa tenha concorrido de algum modo, mesmo que culposo, para o trágico acontecimento". Em nota divulgada no mesmo ano, a defesa de Denise Abreu afirmou que "possui todas as formas de demonstrar a sua absoluta inocência".

Em 2015, o juiz Márcio Assad Guardia não aceitou a denúncia da Procuradoria e inocentou os três. O MPF recorreu.

TRF mantém decisão

Em junho deste ano, o Tribunal Regional Federal (TRF) decidiu manter a decisão que inocentou os acusados. Os desembargadores que compõem o colegiado do TRF decidiram, por unanimidade, manter a absolvição.

Segundo reportagem do SP2, o parecer foi praticamente inteiro apoiado no relatório do Centro de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), que indicou que as condições climáticas ou as condições da pista do Aeroporto de Congonhas não foram decisivas para o acidente.

Segundo o relatório, a falha técnica ou humana no manejo dos manetes teria derrubado o Airbus da TAM mesmo em outras condições climáticas favoráveis. Cabe recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

As vítimas

Bruno era filho de João Maurício de Freitas Nascimento e Francisca Aparecida de Lima. Era natural de Ituiutaba (MG), mas residia há cerca de 16 anos em Rondonópolis. O pai de Bruno é empresário na cidade.

O estudante foi vitimado na tragédia do vôo JJ-3054, quando retornava de Porto Alegre (RS), onde tinha ido tratar de negócios de interesse da família, aproveitando o período de férias da faculdade.

Foram confirmados também que pelo menos dois estudantes de Mato Grosso estavam no vôo que terminou de maneira trágica em São Paulo.

Entre as vítimas estava a estudante de medicina Mariana Pereira, 22 anos, que morou na cidade de Tangará da Serra. Ela cursava medicina em Porto Alegre (RS) e viajava para São Paulo, onde se encontraria com a mãe.

Uma estudante que não morava mais em Mato Grosso, mas que já viveu no Estado e que estava vindo visitar amigos na capital mato-grossense, também foi vítima do acidente. O nome dela é Raquel Warmiling, de 19 anos, e na época morava no Rio Grande do Sul.

Além dos estudantes, um empresário que atuava no Estado também morreu. José Américo do Amaral era presidente da Carrols Food, empresa produtora e processadora de suínos, localizada em Diamantino (270 km de Cuiabá).

FONTE: Com G1

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