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NA LINHA DO VLT

Demolição da Ilha da Banana mexe em ferida da sociedade

Por não ser obrigatória a transferência dos ocupantes para as comunidades terapêuticas, um grupo de alojados nos imóveis decidiu continuar no local

Reinaldo Fernandes

Repórter

18/06/2017 13h00 | Atualizada em 20/06/2017 13h51

Com Sandra Carvalho                                                                                                                                                                Foto: William Mattos

 

“Sou dependente de álcool e faço uso de pasta-base há sete anos. Comecei a partir do momento em que perdi minha casa, perdi meus filhos, aí me desgostei. Comecei com maconha e depois experimentei a base e aí me tornei uma usuária. Eu não gostaria de ser dependente, mas infelizmente aconteceu muita coisa na minha vida. Pra quem está pensando em entrar para este mundo, eu digo: não comece porque é muito difícil de sair”. 

Eloisa Helena Ramos da Silva, 45 anos, cuiabana, é uma das mais de 100 pessoas que descobriu na Ilha da Banana, localizada no Centro Histórico de Cuiabá e bem na linha da obra do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), um abrigo. 

No último domingo, 43 pessoas que ocupavam a Ilha da Banana foram transferidas para comunidades terapêuticas por decisão voluntária. Prédios da área começaram a ser demolidos para a instalação dos trilhos do VLT.

O secretário-adjunto de Trabalho e Assistência Social (Setas), José Rodrigues, afirmou que o governo trabalha em parceria com a Secretaria de Estado de Cidades (Secid), Secretaria de Saúde de Cuiabá e o Consórcio VLT para remanejar os ocupantes da Ilha. 

“Conseguimos negociar com o consórcio responsável pela obra a reinserção de algumas pessoas no trabalho, com contratação para trabalhar na Ilha mesmo. Elas devem ser contratadas para ajudar na demolição e fazer os serviços necessários para limpar a área”.

Por não ser obrigatória a transferência dos ocupantes para as comunidades terapêuticas, um grupo de alojados nos imóveis decidiu continuar no local até a conclusão da demolição dos treze prédios em que a Secid tem autorização judicial para intervir. A previsão é que os serviços sejam concluídos até a primeira quinzena de julho.

Outro de grupo de pessoas que ocupava a Ilha da Banana se instalou no Morro da Luz. O plano emergencial do grupo de trabalho foi transferir as pessoas que optaram por ficar no local para um prédio programado para demolição na etapa final desta fase. A intenção é dar condições para o trabalho de cadastramento dos ocupantes pelo serviço de assistência social.

“Estamos aqui para auxiliar a Secid no trabalho de remoção das pessoas, de forma civilizada. Entendemos que as pessoas que estão na Ilha não são diferentes de nós, estão passando por um momento complexo e queremos ajudar a tirá-las do chão e lhes devolver a dignidade”.

O presidente da Federação das Comunidades Terapêuticas do Centro-Oeste, Alonso Alcântara de Moura, afirma que oito comunidades em Cuiabá e Várzea Grande participam da ação para acolher usuários de drogas que estavam abrigados na Ilha da Banana no entorno.

Sessenta e três vagas foram abertas nas oito comunidades, duas delas femininas, para acolhimento. “Ainda temos vinte vagas nas comunidades que estão prontas para receber pessoal. Desde domingo, conseguimos acolher mais de 40 pessoas e estamos acompanhando as ações do governo para tentar ajudar as pessoas que ficaram no local”.

Segundo ele, 70 usuários circulavam pelo local nos últimos dias. Nove pediram auxílio para compra de passagem de volta para suas cidades de origem, como Campo Grande e Rondonópolis, o que está sendo viabilizado pelas prefeituras e pelo Estado.

Balanço da Secretaria de Assistência de Cuiabá mostra que cerca de 40 pessoas, entre fixos e flutuantes, continuam no local.

 
Fórum cobra política pública para desabrigados

Na sexta-feira (9), o Fórum População em Situação de Rua divulgou um manifesto contra a retirada de pessoas que se alojavam em casas na Ilha da Banana. O grupo cobra a realização de políticas públicas que as atendam.

“O lugar pertence a uma comunidade que se auto-organiza e resiste como população pobre que conseguiu o abrigo dos prédios desapropriados pelo Estado em função da passagem do VLT. Sua condição enquanto comunidade está assentada sobre o território ali encarnado em suas dimensões de abrigo, casa e de refúgio”, diz nota divulgada pelo Fórum. 

Segundo a defensora pública Rosana Monteiro, o Fórum “é uma instância de reivindicação de direito” para atender a população em situação de rua em Cuiabá. Hoje, cerca de 400 pessoas vivem nessa situação na capital. A maioria se agrupa em locais de circulação de drogas, conhecidos como cracolândias, na região do terminal rodoviário, no bairro Alvorada, no Porto e no Centro Histórico.

“O Fórum foi recém-criado em articulação da Defensoria Pública do Estado com os Direitos Humanos para lutar pelas políticas públicas em relação às pessoas em situação de rua. Queremos identificar suas necessidades e fazer a reivindicação de seus direitos, atuando na formação política deles, para que tenham voz, tenham condições de se expressar e dizer aquilo que eles querem”.

Ilha já chegou a abrigar 100 dependentes químicos

A Ilha da Banana é parte da história de fundação de Cuiabá e do cenário de exploração do ouro há quase 300 anos. De referência da cuiabania transformou-se em um tipo de campo de concentração, com cerca de 100 dependentes químicos. Eles se escondem em meio aos escombros de imóveis que devem ser demolidos para dar espaço aos trilhos do sonhado e polêmico VLT. 

Conforme a Secid, a maioria das pessoas tem história conflituosa com a família. Ele (ou ela) se afastou de casa ou foi expulso por causa de roubos para sustentar o vício nas drogas. Reportagem realizada em novembro do ano passado pelo Circuito Mato Grosso mostra a convivência de ocupantes da área.

Teresa Ramires, 50 anos, usuária de drogas, com dificuldade de se locomover por conta de um problema no joelho, decidiu falar. Questionada sobre suas condições de vida ali naquela espécie de buraco que antes deveria ser um estacionamento, chorou. 

“Vivo aqui há três anos. Sou usuária, não sou traficante. Preciso de um médico para operar meu joelho e voltar a andar e também de ajuda para tirar meu filho das drogas. Ele também bebe muito e não sei o que fazer”, disse, enquanto uma mulher fazia suas unhas. Seria uma amiga que às vezes vai lá para cuidar de Teresa.

Na saída, um grupo voltou a se reunir na escadaria da entrada, agora mais receptivo. “Família”, anunciou o primeiro rapaz a conversar com a equipe, quando uma mulher, também usuária, porém mais lúcida do que os demais, observou: “A lei diz que onde há um grupo de pessoas morando por algum tempo elas só devem ser retiradas após o poder público achar um destino pra elas”.

Federação pede auxílio para custear despesas

Alonso Alcântara de Moura pede auxílio do Estado e prefeitura para a manutenção de serviços prestados pelas entidades. Ele diz que os atendimentos são realizados por voluntários e o custeio das despesas vem de apoiadores.

“Sou proprietário de uma área que antes era pousada da família e onde hoje funciona uma comunidade terapêutica. Foi uma decisão que tomamos para ajudar vidas. As comunidades não recebem dinheiro e nós precisamos de apoio para ajudar os dependentes químicos”.

Já o secretário-adjunto José Rodrigues disse que a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Cuiabá e o Conselho Estadual de Drogas demonstraram interesse em auxiliar financeiramente as comunidades na rede de acolhimento de ocupantes da Ilha da Banana.

“O Conselho Estadual de Drogas já informou que abrirá um processo para destinar recursos às comunidades terapêuticas como aporte para ajudar a adquirir o necessário para receber as pessoas em situação de rua e o CDL também mostrou interesse em ajudar através de seu programa social”. 

"Ação não deve ser só higienista", diz CRESS-MT

O Conselho Regional de Serviço Social (CRESS-MT) faz um alerta à Secid sobre a importância de priorizar a população em situação de rua  nessa questão que envolve a dependência química, na ação de demolição dos prédios da Ilha da Banana.

“Essa ação não devia se pautar numa prática meramente "higienista" nem será  resolvido tal problema de maneira  imediatista. É preciso uma política estadual sobre drogas, criar uma rede pública envolvendo as diversas instâncias, com parceria de entidades não governamentais, e não simplesmente transferir responsabilidades”, disse a presidente do CRESS-MT, Andréia Amorim.

A presidente observa ainda que essa ação parece uma tentativa de institucionalizar a destinação de investimentos públicos ao terceiro setor, caracterizando numa espécie de terceirização e privatização da saúde.

“Entendemos isto como uma ameaça às conquistas da reforma psiquiátrica confrontando diretamente com a luta antimanicomial, dos movimentos sociais, em que defendemos a garantia dos direitos sociais e humanos, universalização, laicidade e qualidade das políticas da Seguridade Social”, acrescenta.

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