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JOGO MACABRO

Desafio da Baleia Azul aterroriza jovens em Mato Grosso

Em Mato Grosso, a polícia investiga uma morte e outros dez casos suspeitos de jovens envolvidos no jogo mortal

Catia Alves

Repórter

20/04/2017 08h30 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Você já deve ter escutado falar do “Desafio da Baleia Azul” que se tornou motivo de preocupação de autoridades, pais e responsáveis em diferentes países. O jogo consiste em uma série de 50 desafios diários enviados a participantes, a maioria adolescentes entre 10 e 20 anos, após serem escolhidos por um “curador”. O desafio começou na Rússia, onde as autoridades somam mais de 150 casos, e chegou ao Brasil.

Os desafios vão desde tarefas simples como desenhar uma baleia numa folha de papel até outras como cortar os lábios, furar a palma da mão diversas vezes, fazer cortes em diferentes partes do corpo, e o último é tirar a própria vida. O jogo vem sendo alvo de investigações em Mato Grosso, bem como nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Paraíba e outros.

Em Mato Grosso, a morte da estudante M.F.S.O., de 16 anos, desaparecida na madrugada de terça-feira (11) em Vila Rica (1.270 km de Cuiabá), chocou a população da pequena cidade, após haver vários indícios de que o caso teria relação com o desafio. O corpo da adolescente foi encontrado em uma represa na região central da cidade, no final do mesmo dia do desaparecimento.

Ela saiu de casa sozinha, por volta das 3h15, vestindo apenas a roupa do corpo enquanto a família dormia. A garota deixou duas cartas em que falava sobre as regras, a cronologia das ações a serem cumpridas e também apresentava alguns cortes nos braços e nas coxas.

Antônia Carlos da Silva, mãe da adolescente, conversou com o site veja.com e contou que a jovem apresentou os cortes há cerca de dois meses. Ela também chegou a encontrar um papel em que a menina escreveu regras a serem cumpridas como “abrace os seus pais e diga a eles que os ama”, “peça desculpas”, “tire a sua vida”.

Assustada, a mãe chegou a perguntar para a filha sobre o assunto e a mesma disse que não era nada. “Ela disse que era uma bobagem. Disse: ‘você acha que vou me matar, mãe?’. Perguntei se ela precisava de ajuda e ela disse que não. Na hora, eu preferi acreditar nela. Aquilo não podia estar acontecendo comigo”.

Na entrevista, Antônia conta que na noite da morte da filha a adolescente estava no quarto, no celular, quando ela foi dormir às 22h. A irmã mais velha, que dividia o quarto com a adolescente, também foi dormir. Acordou às 3h04 para desligar o ventilador. A irmã estava lá ainda, deitada, mas acordada.  Ela voltou a dormir, mas acordou novamente às 3h38 e ao olhar para o lado viu que a irmã não estava mais na cama.

Antônia foi acordada na madrugada pela filha mais velha, que avisou que a irmã tinha fugido. “Não sei te explicar, mas naquela hora eu pulei da cama e meu coração de mãe me disse que minha filha estava morta”. A família saiu de madrugada em busca da menina, mas não a encontrou.

“Eu só quero que outros pais não passem pela dor que estou passando. Que não chorem o que estou chorando. Precisamos estar mais presentes na vida dos nossos filhos. Eu quero que o caso da minha filha sirva de alerta, pois outros jovens podem estar envolvidos nisso”, disse a mãe.

Polícia tenta achar “curadores” que levaram garota à morte

Após a morte, grupos de WhatsApp da cidade estão sendo monitorados pela polícia para tentar identificar quem seriam os “curadores” que induziram, instigaram e auxiliaram o suicídio. Como uma forma de prevenir outros casos, a Polícia Militar está realizando uma série de palestras educativas nas escolas da cidade.

Em uma dessas escolas, os policiais foram contatados pela diretora da unidade que relataram que uma mãe teria notado mudanças no comportamento da filha e, ao verificar o celular, viu que a menina estava participando de um grupo do jogo suicida.

“A diretora me procurou durante a palestra e contou sobre a mãe. Fomos até ela, que nos entregou o aparelho celular da filha. Nele encontramos vídeos de pessoas cometendo suicídio e alguns grupos no WhatsApp sobre o jogo”, contou ao Circuito Mato Grosso o tenente-coronel da PM Reginaldo Ângelo. 

Com o auxílio e apoio da PM, a mãe da menina foi até a delegacia do município e registrou um boletim de ocorrência. “Ao registrar o B.O. nós apreendemos o aparelho celular que foi entregue para perícia. Após o laudo, saberemos mais detalhes e se realmente a menina estava participando do desafio”.

Segundo a Polícia Militar, outros dez adolescentes e jovens já foram identificados em Mato Grosso como “jogadores” do “Baleia Azul”. Quatro são de Vila Rica, onde uma adolescente já se suicidou, e dois de Confresa. Uma jovem de 22 anos já estaria na fase final do jogo, que termina com a pessoa tirando a própria vida.

Seriado “13 Reasons Why” faz aumentar procura no CVV

Na busca de tentar ajudar essas pessoas, o Centro de Valorização da Vida (CVV) presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio, para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato. O atendimento é para pessoas de qualquer sexo, idade, religião ou profissão.

Por meio dos canais de atendimento, telefone, Facebook e chats, os voluntários realizam o atendimento 24 horas por dia, todos os 365 dias do ano. Ao Circuito Mato Grosso, a ONG informou que até o momento não tem números de ligações realizadas após as notícias sobre o Desafio da Baleia Azul.

Mas há cerca de 10 dias, após o seriado da Netflix “13 Reasons Why”, houve um aumento de seis vezes o volume de e-mails recebidos. Foram registradas em média 300 mensagens diárias e filas no atendimento do chat. Nesses dois meios de contato, algumas pessoas mencionam o seriado e são, na sua maioria, jovens e adolescentes.

A voluntária Isaura Titon explica que o CVV não diminui a dor de ninguém e que os problemas relatados por todos por telefone são tratados de forma igualitária. "Nós os atendemos da mesma forma que nós atendemos as outras pessoas. Não o tratamos como menor ou diferente. Para nós os problemas deles são iguais às questões de outras pessoas, então eles merecem o mesmo apoio, a mesma orientação, quanto à dor que eles estão sentindo”.

Na opinião da voluntária, os jovens sofrem porque as pessoas tendem a minimizar o sofrimento deles. “Escuto dizerem que quando o jovem crescer o problema vai passar, que é bobeira, mas não é. Para eles não é, é um momento de dor que ele está sentindo. A gente não minimiza, nem desmerece, nós tratamos e respeitamos a dor dele”, explicou.

Em Cuiabá o serviço é prestado há mais 25 anos e, em média, são realizados 400 atendimentos por mês via telefone 24 horas no telefone 141 (para Cuiabá e região) e (65) 3321-4111. Além disso, oferece atendimento pessoal em seu endereço – Rua Comandante Costa, 296, Centro, Cuiabá, todos os dias das 8h às 16h.

Estatística

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2014 mostram que a cada ano mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida, o que corresponde a uma taxa de mortalidade de 16 por 100 mil habitantes, o mesmo que uma morte a cada 40 segundos, número que pode dobrar até 2020.

Na faixa entre 15 e 29 anos, o suicídio é a segunda causa de morte. E 75% dos casos de suicídio no mundo ocorrem em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Para cada suicídio há, em média, cinco ou seis pessoas próximas ao falecido que sofrem consequências emocionais, sociais e econômicas.

Baleia Rosa – inversão de desafios

No Facebook, uma página chamada “Baleia Rosa” foi criada com o intuito de combater o jogo da Baleia Azul. A página, repleta de mensagens positivas, propõe desafios como “poste uma foto usando a roupa que te faz sentir bem”, “faça carinho em alguém”, “faça um novo amigo”, e com uma única regra: todas as tarefas devem ser de alguma forma registradas nas redes sociais dos participantes. Criada na quinta-feira (13), a página já registrava 101.901 curtidas nesta quarta-feira (19). Em menos de uma semana foram mais de 100 mil curtidas.

 

Psicóloga faz alerta à sociedade

O jogo e a forma como o mesmo seduz os jovens chamam a atenção de médicos, psicólogos e de pais pelo mundo inteiro, mas como bloquear esta febre e conseguir protegê-los? A pergunta é feita pela psicóloga Laura Oliveira Gonçalves, especialista em abordagem sistêmica (terapeuta de casais, crianças, família e adolescentes) em seu artigo “Atenção ao perigo do desafio da Baleia Azul”.

A resposta não é simples, segundo a médica, mas se encontra, principalmente, na criação de elos com os jovens e assim fomentar afinidades, mudando e inserindo novos hábitos. O diálogo entre pais e filhos ainda é a melhor alternativa, assim como fazer parte da vida, conhecer a rotina e o núcleo de amigos.

Ao Circuito Mato Grosso, ela explica que em relação ao jogo da Baleia Azul, a pessoa que aceita o desafio já tem uma idealização suicida. “Se ele [jovem] está passando por alguma coisa, se tem depressão, uma carência muito grande, a falta dos pais, o bullying na escola, o adolescente em si não consegue passar por isso sozinho. Então esses grupos estão inseridos como se fosse uma autoajuda, um escape da dor que o adolescente está sentindo”.

O jogo então é usado como uma desculpa para fazer com que o adolescente cometa aquilo que ele já havia idealizado. Pais, professores, familiares devem então estar atentos a tudo, pois para a psicóloga esse adolescente sabe o que está fazendo. “Hoje em dia o adolescente é informado, ele sabe tudo. Quando ele entra nesses grupos é para chamar atenção ou para realmente se punir, livrar-se da dor que não consegue mais sentir sozinho”.

Os pais às vezes não conseguem prestar atenção nos filhos, às vezes têm a vida muito agitada, não conseguem ver o que eles fazem na internet, em quais sites navegam, com quem conversam no WhatsApp.  Por isso é importante que o responsável, ao notar alguma atitude diferente, busque auxílio do psicólogo para uma análise profissional e assim definir um tratamento adequado.

Profissionais ressaltam que é importante ficar atento aos sinais de que os filhos possam estar entrando na brincadeira ou estejam precisando de ajuda. Alguns deles são:

  • Isolamento
  •  Agressividade
  • Mudança de comportamento
  • Não deixar os pais chegarem perto de seu celular ou computador
  • Usar manga comprida em dias de calor
  • Queda no rendimento escolar
  • Mudanças no padrão de sono
  •  Mudanças de apetite
  • Cortes pelo corpo

Conselho de quem sobreviveu

Uma adolescente que sobreviveu ao jogo recomenda que outros jovens e adolescentes não embarquem no desafio macabro que quase lhe tirou a vida. A adolescente, de 15 anos, moradora do Rio de Janeiro, descobriu a existência do Baleia Azul no fim de 2016, por amigos e redes sociais, mas só começou a se inteirar mais do assunto neste ano.

“Eu pensei que seria uma saída para mim. Uma saída para a minha tristeza”, disse a jovem, que revelou ter sido aliciada por uma pessoa nas redes sociais. “No perfil dele tinha uma baleia. Eu disse que queria participar, e ele perguntou se eu tinha certeza, porque não tinha mais volta se eu entrasse”.

Entre os “desafios” propostos por essa pessoa estavam pedidos para que ela fizesse cortes nos braços no sentido das veias, e registrasse tudo em vídeos e fotos que serviriam como provas. A menina foi salva pela mãe, que descobriu a tempo que a filha estava participando do desafio. Ela chegou a ser internada num hospital, onde repensou o desejo de pôr fim à própria vida.

“Quando eu fiquei internada, vi muita gente tentando lutar para sobreviver. Despertou em mim algo que não consigo explicar, mas que era injusto. Injusto com eles”, disse. A adolescente também aconselhou a que ninguém faça parte do jogo, pois só traz coisas ruins, aumentando ainda mais a tristeza da pessoa.

“Eu diria a elas para apostarem em algo que gostem, uma música boa que ouviram no rádio, que possam escutar e se sentirem melhor. Porque eu sei o quanto dói, mas não vai ser o jogo que vai fazer você parar de sentir a dor. E nem a morte”, desabafou.

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