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CRISE GERAL

Mesmo com plano de saúde, cidadão tem dificuldade de acesso a serviços

Atendimentos em hospitais particulares estão tão saturados quanto os da rede pública, conforme usuários, que reclamam de plan

Reinaldo Fernandes

Repórter

15/04/2017 08h00 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

O acesso a atendimento médico está cada vez mais precário. Além do difícil acesso aos serviços de saúde pública, as reclamações agora se estendem a clientes de planos, apesar do custo mensal. A capacidade de atendimento e o tempo de espera para consulta e exames em hospitais privados estão tão saturados quanto os de policlínicas.



Um grupo em rede social vincula hoje mais de 88 mil moradores de Cuiabá e Várzea Grande, dentre eles clientes de operadoras de saúde, coleciona posts de reclamações de precariedade de serviços apesar de pagarem rigorosamente as parcelas dos planos de saúde e de desconto. (Os nomes a seguir serão modificados para proteger a identidade das pessoas).

Jacinta, que levou sua filha a hospital conveniado a planos de saúde, na terça-feira (11), diz que o atendimento para a criança, que tinha vômito, febre e disenteria, levou mais de quatro horas. “Passei pela triagem e fiz o cadastro do atendimento às 14h15, indo várias vezes reclamar na recepção pela demora (isso, umas quatro vezes). Não tive uma opção a não ser de falar que iria procurar meus direitos e iria cancelar o atendimento. Pedi que eles me dessem algo que comprovaria o horário que cheguei e o horário que ia sair, mas disseram que se cancelasse não poderiam me dar o comprovante”.

Sua filha foi atendida somente às 18h, depois de uma intervenção do gerente da clínica pediátrica.  “Chamaram o gerente, que imediatamente entrou na sala do médico e em menos de minutos chamou pela minha filha, isso já eram 18h (ou mais). Sim, esperei esse tempo por uma consulta e só fui atendida nesse horário porque fiz um barraco”.



Segundo ele, o mau atendimento não se restringiu à parte médica. Foi dificultada a liberação de algum comprovante que informasse o horário de entrada e saída dela com a filha do hospital. Segundo o atendente, o comprovante somente poderia ser liberado sob a autorização da chefia do hospital. “Não negaram, mas pediram meus dados, pois tinham que pedir autorização para chefe (mesmo assim, perguntei se no sistema ficavam guardadas as informações cadastrais)... muito descaso. Quem tem filho sabe como é difícil ficar horas em um lugar, e em meio à crise que vivemos, pagar plano de saúde não está nada fácil”.

A situação já havia se repetido algumas vezes com outros clientes. Jacqueline Carla diz que no último dia 3 entrou no mesmo hospital às 18h, com seu filho, e só houve atendimento às 22h. Três dias mais tarde, ela precisou voltar ao hospital para novo atendimento ao filho que teve ataque de alergia, e o tempo de espera foi longo.

“Resolvi ir um pouco mais tarde pra ver se estava mais calmo por lá. Cheguei às 22h e à 0h30 não tinha nem previsão de ser atendida. A recepcionista me disse que havia pacientes desde as 18h para serem atendidos. Resolvi ir embora sem atendimento médico. Isso [post de reclamação] não é só uma indignação de minha parte e sim de todos que ficam à espera”.

“É muito doloroso para um pai e uma mãe que trabalham o mês inteiro, muitos ganham muito pouco, mas fazem de tudo para pagar um plano de saúde para seus filhos (que não é barato) para serem tratados dessa forma”.

As complicações graves envolvendo planos de saúde não se limitam a atendimentos pediátricos. Marta Capão e sua avó de 77 anos ficaram mais de uma hora e meia, no dia 1º de abril, em hospital para a aposentada ser atendida. A situação iria piorar na continuidade do atendimento.

Clientes reclamam de desrespeito de operadoras

As reclamações se estendem também às operadoras. Karen de Jesus ficou mais de vinte dias para receber autorização de exame de angioplastia para seu irmão, de 32 anos. “Ele está com quatro artérias do lado esquerdo do coração obstruídas e uma do lado direito. O procedimento foi solicitado, depois de ter passados sete dias na UTI e dois dias em enfermaria, após um infarto”.

Segundo ela, seu irmão é cliente de operadora de saúde há 11 anos, tempo que não serviu para agilizar o atendimento, mesmo sob risco de morte. “No momento em que precisa, pois corre risco de morte, o plano não atende a necessidade, deixando as coisas acontecerem como se nada tivesse acontecido”.

Thiago Assunção diz que passou por cirurgia no começo deste ano. O atendimento, no entanto, foi complicado. Segundo ele, no comprovante clínico, o procedimento estava agendado para as 6h, e ele chegou ao hospital na hora recomendada para iniciar a preparação habitual. Mas, depois de seis horas espera, foi informado que o horário para o procedimento tinha sido alterado para as 13h.

“Passaram quase 6 horas de espera e nenhum recepcionista chamou pelo meu nome. Me dirigi até um deles e questionei o andamento do processo de cirurgia, obtive a resposta que minha cirurgia estava marcada a partir das 13h daquele mesmo dia e que era pra aguardar”.

Crise econômica abre novo nicho de atendimento

As dificuldades de gerenciamento via plano de saúde, contrabalançadas às mensalidades caras, abriram um novo de nicho de apelo de acesso ao atendimento médico por meio de cartão de desconto. Uma empresa administradora desses serviços em Cuiabá diz que a média hoje de atendimento mensal gira em torno de 10 mil somente na capital.

O atrativo desses planos está na variação de desconto para consulta e exame e a ligeira redução de tempo para o atendimento. Os preços podem ficar até 70% abaixo do preço do mercado, com um leque amplo de ofertas de especialidades, que vão de pediatria e obstetrícia a psiquiatria e oftalmologia.

“Esse serviço está chamando mais a atenção hoje por causa de dois fatores: a dificuldade de conseguir atendimento na rede pública e pelo plano de saúde, e a crise econômica, que apertou o orçamento do trabalhador”, diz Rosana Oliveira, gerente da administradora.

Segundo ela, hoje a empresa que gerencia oferece 41 especialidades médicas para atendimento que demoram entre três e 15 dias, para consulta, e de até um mês para exames.

“O preço da consulta do clínico geral, uma das mais procuradas, está hoje em R$ 66, oftalmologista, R$ 74. O atendimento com psiquiatra tem o maior preço, R$ 174”.

A vendedora Kelly Ribeiro, 22 anos, diz que tem realizado consultas médicas por meio dos planos de saúde, em convênio com agência de serviços funerários, que oferece benefícios de plano de desconto. O preço dos atendimentos é tratado e cobrado diretamente pela administradora dos planos, no momento de agendamento.

“O tempo de exame é rápido, geralmente consigo para o dia seguinte do agendamento. E há qualidade no atendimento, não há problema de cancelamento e de falta de médicos para procedimentos já agendados”.

O jornalista Wellington Souza, 23 anos, que também utiliza planos de desconto, diz que o seu tempo de espera é maior, mas ainda assim é menor que os disponibilizados por outros tipos de planos ou na rede pública.

“Cheguei a esperar um mês em agendamento de consulta, não era nada de urgente, mas achei que o prazo deveria ser menor”.

ANS alerta para negociações de cartão pré-pago e de desconto

A Agência Nacional de Saúde (ANS) afirma que os serviços de cartão de desconto são disponibilizados por meio de taxa de adesão ou mensalidade. O contratante paga um valor para a empresa que lhe vendeu e recebe um cartão de identificação para pagar, com desconto, consultas ou outros serviços médicos. A forma de pagamento é negociada entre consumidor e o estabelecimento responsável pelo serviço médico.

 Outro serviço que tem sido ofertado por empresas, que não são operadoras de planos de saúde, é o cartão pré-pago. Neste, o contratante paga uma quantia (“taxa de adesão” ou “anuidade” ou “mensalidade”) para ter acesso ao serviço médico, e, além disso, precisa carregar o cartão com um valor livre ou mesmo determinado pela empresa que vendeu. Com os valores depositados no cartão, se pode pagar consultas ou outros serviços médicos com desconto em estabelecimentos indicados pela empresa.

A ANS alerta que tanto cartão desconto quanto cartão pré-pago não são planos de saúde que dão cobertura de um leque de serviços por meio de pagamentos mensais, independentemente se o serviço está sendo utilizado ou não. Nos outros modelos, os contraentes devem pagar os procedimentos no momento de realização do serviço.

“O cartão de desconto e o cartão pré-pago não garantem o acesso ilimitado aos serviços garantidos pelo plano de saúde. Dependendo do valor que você carregar no cartão, poderá até realizar alguns procedimentos. Mas, quando precisar de um serviço médico de alto custo, provavelmente o valor não será suficiente para permitir o seu atendimento, e aí a empresa que vende o cartão não tem nenhuma responsabilidade”, explica a ANS.

Aplicativo propõe acesso a serviços sem pagamento de mensalidade

Um aplicativo de celular lançado em Mato Grosso promete revolucionar a forma como as pessoas compram remédios e marcam consultas e exames laboratoriais sem precisar pagar plano de desconto. O aplicativo Rede Saúde Legal já congrega 20 farmácias em Cuiabá e Várzea Grande, além de 250 médicos em todo o Estado e com projeção de se expandir para todo o Brasil.

O aplicativo nasceu da necessidade de as pessoas encontrarem melhor atendimento nas farmácias, que segundo um dos criadores, Eugênio Mazzini, se tornaram balcões de supermercados. Além de Mazzini, outras 27 pessoas de diferentes profissões contribuíram para a elaboração do software.

Segundo o empresário, as farmácias que desejam aderir à plataforma digital devem ter em mente que o foco é a qualidade do atendimento ao cliente e preço. Ele argumenta que esta é uma “sementinha” plantada, que tem como objetivo promover uma “regulação dos serviços de farmácias” pelo próprio consumidor e diminuir em 10% a automedicação.      

Atualmente o aplicativo tem farmácias e médicos cadastrados nas cidades de Cuiabá, Várzea Grande, Colniza, Tangará da Serra, Sinop, Sorriso, Nova Mutum, Poconé e Nobres.

Para utilizar o aplicativo, o cidadão deve primeiro fazer o download do software na loja de aplicativos do Google (Play Store) e fazer um cadastro com o e-mail ou login com o Facebook. Depois disso, ele deverá informar um número de celular para obter o retorno das farmácias.

Depois, é só pressionar o botão que tem o sinal da digital de um dedo, e então a farmácia vai ligar para o cliente e perguntar em que pode servir o cliente. Através desse procedimento, o paciente pode ter acesso a um medicamento e até um médico especialista para marcar uma consulta.

Para marcar uma consulta com um médico, o paciente deve fazer o mesmo procedimento. Após receber a ligação, o cidadão vai informar que precisa de um médico de determinada especialidade e os atendentes passarão uma relação de médicos e valores das consultas, assim como a proximidade em relação à casa ou local em que está o cidadão.

Mazzini assegura que os preços cobrados pelos profissionais da saúde são semelhantes às tabelas de planos de saúde e de descontos. Já as farmácias oferecerão o serviço de acordo com a sua capacidade, “sem nenhum tipo de imposição”, garante Mazzini.

Ele compara o programa ao Uber e espera atingir pelo menos 200 mil pessoas em Cuiabá, mas que isso será feito através da publicidade boca a boca. “É isso que todo ser humano gostaria que acontecesse. Alguém que ligasse e dissesse: cara como eu posso te servir?”, sintetiza Eugênio.

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