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MELHORIA DE VIDA

Voluntários trabalham na promoção da cidadania em Cuiabá

Crianças e adolescentes que poderiam estar expostos à violência das ruas são acolhidos por projetos sociais

Valquiria Castil

Repórter

19/03/2017 07h35 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Fotos: Ahmad Jarrad

Com o objetivo de proporcionar melhoria à qualidade de vida e suprir a ausência do Poder Público, que tem deixado a desejar seja na educação ou saúde, pessoas anônimas tomam iniciativas para de alguma forma ajudar ou transformar, mesmo que minimamente, as mazelas da sociedade por meio de projetos sociais. Trabalhos individuais e em grupo revelam a grandiosidade de pequenos gestos e ações realizados em comunidades de Cuiabá.

Um exemplo é o bairro Dr. Fábio I, região periférica da capital, onde um quarteto de apaixonados por futebol se uniu e envolveu toda a comunidade em um projeto para meninos a partir de 7 anos de idade com o intuito de tirá-los da rua, onde ficam expostos à criminalidade e à marginalização.

Em um campo improvisado debaixo de um linhão de transmissão de energia, mais de 65 crianças e adolescentes treinam de segunda a sexta-feira, no período da tarde.  O projeto atende moradores do CPA, Jardim Paraná, Três Barras, Umuarama e Altos da Serra, além das duas etapas do Dr. Fábio. 

Carlos Eduardo Silva e Emanuel Vicente Ribeiro (o Neto) são professores de educação física e os treinadores responsáveis pelo condicionamento físico, disciplina e também pela educação, uma vez que para participar os meninos se comprometem a tirar boas notas na escola e ter um bom comportamento em casa. 

O jornalista Cléo Costa é o responsável pela divulgação do projeto social e busca parcerias e fundos para garantir a disputa do final de semana. Ele conta com o apoio da esposa Thalyta Waylla e do presidente do Departamento de Esportivo Comunitário, Francisco Martins, conhecido como Chicão.  

“A nossa exigência para participar do projeto é estar estudando, manter uma boa média na escola e ter um bom comportamento em casa com os pais”, explica Cléo. que retomou o projeto há três meses. 

Um dos adolescentes, de 14 anos, é exemplo de tantos que não são assistidos pelo Poder Público e acabam seguindo o rumo das drogas e criminalidade. No entanto, C.J. tem a oportunidade de trilhar um novo caminho. 

“Antes eu ficava muito fora de casa, andando com gente que não devia, fazendo coisa errada. Agora é da escola pra casa e do treino pra casa”, afirma o garoto, que sonha em ser goleiro e atribui a mudança ao pedido da mãe e ao projeto que deu esse novo rumo à sua vida.

Colégio militar

Por meio do projeto, cinco adolescentes conseguiram uma bolsa de estudo para estudar em um colégio militar particular da região do bairro Morada da Serra. Como uma boa parte dos meninos brasileiros, Marcio Gabriel e Davis Rafael, de 16 anos, não fogem à regra do sonho de ser jogador de futebol e com isso poder ajudar a família. “Espero ter oportunidades profissionais também”, diz Marcio.

Jhonata Mamoré, de 15 anos, é um dos rapazes beneficiados com a bolsa e relata a infância no bairro. “Sempre fiquei na rua soltando pipa. Agora a gente tem bastante aprendizado. O projeto é importante pra resgatar outras crianças que ficam na rua”, reconhece o rapaz. 

Treinadores superam dificuldades para manter projeto

Entre segunda e sexta, Carlos Eduardo Silva disponibiliza 4 horas de seu tempo para treinar as crianças para as disputas de sábado. “No curto tempo de trabalho nós já percebemos mudanças nesses jovens, o impacto ainda é pequeno, mas aos poucos a gente vai aumentando a escala.

Os pais relatam pra gente essa mudança, dias atrás veio um pai aqui agradecer por conta dos três filhos que melhoraram em casa. Isso pra nós é uma vitória, a gente já percebe nossos frutos crescendo”, comemora. 

O treinador físico avalia todo o trabalho como proveitoso, uma vez que não se dispõem de um local adequado, com equipamentos e suporte necessário. “Por eles serem crianças e jovens, eles estão se desenvolvendo, estão produzindo”, completa.

Os adolescentes também são preparados por Emanuel Vicente Ribeiro  (Neto), que sente o maior orgulho de fazer parte dos sonhos desses jovens, o que faz com amor. No entanto, frisa as dificuldades do grupo em levar jogadores para competir.

“Nós levamos aos trancos e barrancos contando com o apoio da comunidade, que nos ajuda como pode. É bem difícil levar essa gurizada, pois nem todos têm carro, alugar ônibus sai muito caro, então a gente vai trabalhando com o que tem ao nosso alcance”, narra. 

Por meio de rifas e festivais de pizza, o grupo já conseguiu comprar um jogo de uniformes. Para garantir uma boa aparência nas competições, os treinadores utilizam bolas surradas durante o treino, enquanto as bolas novas ficam reservadas para as ocasiões especiais.

Embaixo de um linhão

Como o campo é um terreno que tinha um matagal e ocupa um espaço bem grande no meio do bairro, uma parte foi limpa e ali se colocaram traves, no entanto à noite o lugar fica vazio, jovens o utilizam para fazer racha de motos.

Para inibir a prática, Chicão foi um dos responsáveis para demarcar a área com pneus e enchê-los de terra – para evitar o acúmulo de água parada – com a ajuda de outros moradores.

“A nossa ideia não é nem sair um profissional, mas sim uma pessoa de bem. A gente trabalha como pode pra poder dar essa chance a eles de se tornarem gente de bem”, disse emocionado por ver tantas crianças carentes que precisam de incentivo e oportunidades, e que muitas vezes acabam se perdendo pela vida.

Parentes acompanham a participação das crianças

Alguns pais, sempre que podem, acompanham os filhos no treino. Ademir Couto Gil, pai de Alessandro, 11, observa o filho e garante que o esporte é uma boa saída para o aprendizado. “Aqui não tem nenhum tipo de lazer para as crianças, é bom ter esse projeto aqui no bairro, dá uma ocupação a mais para eles, que aprendem a ter disciplina”, afirma. 

Sandra Cavalcante e Marcilene Cavalcante são cunhadas e, sempre que podem, acompanham os filhos Juliano e Agnaldo Junior, de 10 e 13 anos, respectivamente. Moradora do Dr. Fábio, Sandra diz que as crianças são apaixonadas por futebol, motivo que reflete no comportamento deles em casa.

“Eles acabam se comportando melhor pra poder participar dos treinos e jogos. Quando se acha um projeto como este, tem que abraçar, dar apoio”, diz ao relatar que a comunidade contribui como pode. 

Marcilene frisa a importância e necessidades do projeto. “Por ser um bairro carente, é importante ter uma atividade como essa para evitar as crianças mexerem com o que não deve. O projeto é bom, mas precisa de uma força para conseguir patrocínio e melhorias”, declara.

Assistência Social dará continuidade a projetos em andamento

A secretária municipal de Assistência Social e Desenvolvimento Humano (SMASDH), Singlair Muniz, garantiu a continuidade dos projetos já atuantes da capital, em todas as áreas que envolvem o atendimento através do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS).  Entre eles a rede infantil, idosos, mulheres, família, moradores de rua, entre outros nichos.

Singlair destacou também reformas, ampliações e criação de novos projetos, entre elas a de uma nova Casa-Lar para meninas de 12 a 18 anos, para suprir a defasagem que vem desde 2014; a reforma de 14 CRAS até 2018 e a retomada do Centro Pop, para população de rua que deve atender em uma maior escala que os atuais albergues de Cuiabá. 

A outra garantia da pasta é o Centro Dia para Idoso, que deve funcionar como uma creche para o idoso. “Este é para o idoso que não tem com quem ficar durante o dia. Se não conseguirmos recursos com emendas, iremos fazer com recursos próprios, para este ano ainda”, afirma Singlair.

A secretária pontuou a fragilidade de quem precisa de mais respaldo. “Geralmente o lado mais fraco da corda é a mulher e a criança. Se uma mulher é agredida, nós temos uma Casa de Amparo para a Mulher”, explicou ela que frisou também a união das secretarias para melhorar o suporte ao cidadão.

Com isso, também anunciou a ampliação do Siminina – que tem a expectativa de atender 1.500 meninas neste ano –, o qual, a partir de julho deste ano, deverá atender aos garotos com o projeto Siminino. 

“A transversalidade entre as secretarias de Educação, Saúde e Cultura vai levar um professor de educação física, um médico e um professor de dança, por exemplo, que além de fazer uma integração vão trabalhar a humanização, conforme o pedido de Emanuel (Pinheiro)”, explica Singlair.

Retomada do Bom de Bola, Bom de Escola

O secretário-adjunto de Cultura, Esporte e Turismo de Cuiabá, Edilson Odilon da Silva, está à frente da comissão formada para retomar o projeto Bom de Bola, Bom de Escola – promessa da campanha eleitoral de Emanuel Pinheiro (PMBD), que afirma se basear no reconhecimento como um “projeto que avançou na política de ação social”.

Edilson revelou ao Circuito Mato Grosso que a atual situação dos 32 miniestádios e oito ginásios poliesportivos está desfavorável para a implantação do projeto. “Infelizmente nos deparamos com a situação na qual hoje 90% das unidades não têm condições de receber o Bom de Bola, Bom de Escola. Estão depredadas”, apontou o secretário que prepara uma vistoria minuciosa para a realização de possíveis reformas e administração efetiva.

“O prefeito tem buscado emendas para conseguir os recursos necessários, inclusive reunião com Confederação Brasileira de Futebol e o Ministério do Esporta para fazer parcerias”, disse.  

As unidades aptas a receber o primeiro projeto piloto – que deve ser apresentado neste mês de março ao prefeito – seriam as do Complexo Dom Aquino e do bairro Quilombo. A ideia é que o complexo reúna várias atividades esportivas, além do futebol e suas variações, com esportes como tênis de mesa. 

Para o adjunto, a volta do Bom de Bola, Bom de Escola tem um grande alcance social. “Tirar as crianças da rua, no período em que não estão na escola. Trazer aquela criança que fica em casa cuidando do mais novo, dar uma oportunidade para eles serem crianças, de fazerem uma atividade esportiva.

Elas na rua passam a ser vitrine para a criminalidade, das drogas e uma vez nesse meio é muito difícil de regatá-las”, pontua Edilson que afirma ser um meio de deixar os pais mais tranquilos.  

 

 

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