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EM RECIFE

Prefeitura fornece protetor solar com base e albino sofre bullying

Irmãos albinos sofrem com protetor solar com base

18/03/2016 09h18 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00 1 comentario

Crédito: Fernando da Hora/JC Imagem



Albino, Kauan sempre quis ter na pele a cor dos pais. Queria ser negro. Aos 12 anos, porém, o menino teve que usar um protetor solar de cor diferente da sua, mais escuro, entregue pela Prefeitura de Olinda. Parecendo pintado para se proteger do sol que o machuca, foi alvo de um dos xingamentos mais usados por racistas: macaco. "Disse que queria ser moreno na outra vez em que você veio aqui, mas, desse jeito, não gostei", afirmou, inocente, à repórter que esteve na casa dele há pouco mais de dois anos para recontar a história da família revelada em 2009 pela reportagem especial À Flor da Pele, do Jornal do Commercio.

O protetor foi entregue a Rosemere de Andrade, mãe dos irmãos albinos, no dia 1º de março. Com os três atestados médicos em mãos - além do que diagnistica o albinismo de Kauan, o de Estefani, 14, e Rute, 17 -, cumpriu o ritual mensal: saiu de casa, na segunda etapa de Rio Doce, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, e foi até a PE-15, no mesmo município, para tentar pegar o protetor solar, que já não era entregue desde setembro. Recebeu dois para cada, número insuficiente, segundo ela. "Antes eram quatro para cada um", reclamou.

Ao chegar em casa, percebeu que o creme tinha uma cor estranha; era bege claro. Mesmo assim, Kauan passou e foi à escola. Contrastou com a pele e os cabelos brancos. Sujou a roupa. "Os meninos disseram que passei barro na pele, gostei não. Estavam 'mangando' de mim na sala", lembra o menino, que chegava em casa chorando depois de ser tratado assim pelos amigos. Não foi a primeira vez que o garoto antes chamado de "branco vira-lata" na comunidade do V8, onde morava, conheceu de perto o preconceito, mas foi igualmente doloroso desta vez.



As irmãs mais velhas também já sofreram com os olhares enviesados por serem albinas, mas desta vez, asseguram, já sabem se defender. "Só aconteceu isso de ficarem soltando piadinhas com Kauan, acho que porque ele é novo ainda", frisou Estefani. Mas as adolescentes também não não aprovaram o novo protetor solar. "Além de ser de uma cor estranha, quando estamos no sol parece que está derretendo e queimando", relatou Rute. Os três pararam de usar o creme na primeira semana, mas foi tempo suficiente para deixar marcas de Kauan, que coçava a pele irritada e ficou com manchas vermelhas na testa, nos braços e no pescoço.

Percebendo a dificuldade do filho, Rosemere foi buscar providências na escola pública onde as meninas fazem o oitavo ano do ensino fundamental e ele, o quinto. O bullying parou quando Kauan já tinha voltado a usar um protetor comum, recebido em 2014, quando também ganharam 25 camisas com proteção contra raios ultravioleta - e fazem questão de agradecer pelas doações.

Só resta um pote, o suficiente para uma semana, e Rosemere não tem quase R$ 100 para comprar outro. "Quero arrumar um trabalho na área de serviços gerais para poder ajudar os meus filhos quando acontecer isso, que se repete sempre na minha vida. Estou pensando em voltar a morar na favela também, porque pelo menos lá tenho o apoio da minha família, não pago impostos e contas e ainda consigo arrumar 'bicos' de manicure", planeja Rosemere. Quando crianças, os albinos viviam confinados na pequena casa de tábuas, enquanto um irmão negro, João, hoje com 16 anos, podia sair para brincar. Tiveram mais duas irmãs de pele morena depois. 

A mãe já foi com as meninas à farmácia onde receberam o protetor solar, mas não conseguiu resolver o problema. "Disseram só que o papel deles (da prefeitura) já estava feito e mais nada. Não sabemos se no próximo mês vai ser do mesmo jeito", reclamou Rute. Em resposta, a Secretaria de Saúde da Prefeitura de Olinda afirmou que comprou os protetores e que a família deve procurar o órgão para buscar um acordo. Nenhuma medida prática será tomada até lá.

O trauma com o protetor solar pode ser danoso a Kauan. "A partir do momento em que o filtro solar causa transtorno, a criança pode abandonar essa proteção e, no caso dos albinos, a gente não quer que use uma vez na semana mas 365 dias no ano. Assim, passa a ser uma atitude contrária; em vez de ser benéfico, o filtro solar vai traumatizar", ponderou o dermatologista Emerson de Andrade Lima. De acordo com o médico, a cor é uma proteção a mais no produto, por ser mais uma barreira contra a luz visível, mas ela só deve estar presente se for confortável a quem estiver usando. "Não adianta oferecer um filtro solar que ele não se adapte à cosmética. Isso para uma criança é complicadíssimo porque criança corre, transpira, e o suor vai fazer desprender. Para elas, estimulamos filtros solares mais gordurosos, mais físicos. O que importa é a adesão", recomendou.

Ao contrário do que se acredita, segundo Andrade Lima, não é necessário que os albinos usem cremes com FPS 100, mas a orientação é que prefiram aqueles que tenham proteção acima de 50. Além de passar o protetor constantemente, devem usar roupas cujas fibras sejam banhadas em filtro solar e óculos de sol. "No albinismo o que a gente tem é uma perda natural da proteção, é a ausência de melanina. Com isso, pessoas mais propensas ao desenvolvimento de câncer de pele e de lesões pré-cancerígenas", explicou. A pele dos albinos também é mais espessa, devido à exposição aos raios ultravioleta A (mais perigosos, por não provocar irritações evidentes) e B (a que causa queimaduras), portanto, mais sujeitas à desidratação e a infecções por vírus, bactérias e fungos.

Fonte: UOL

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1 COMENTÁRIO

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  1. Será que essa mãe sabe que ela pode comprar filtro solar mais barato, se escolher um de proteção 50, por exemplo? Será que essa mãe sabe que pode acionar o município onde mora, judicialmente, via Ministério Público, para que seus filhos possam receber o filtro solar adequado e sistematicamente? Alguém pode por favor orienta-la, fornecendo essas informações e até mesmo ajuda-la nisso? Obrigada!!

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