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Aventuras da infância

Por Judite Rosa   Nas últimas semanas fiquei triste ao ver reportagens sobre um 'abrigo clandestino para idosos', em Cuiabá, que foi interditado por ter ali alguns idosos sobrevivendo em condições subumanas. Parece que a muitos ainda não conseguem ter consciência sobre o que representam e quanto podem nos ensinar aqueles que já viveram bem mais do que nós. Entre outras coisas, me marcou a frase da apresentadora do telejornal que disse: "pessoas que passaram a vida cuidando dos outros agora não têm o direito de serem bem cuidadas".

12/03/2014 20h39 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Talvez as notícias tenham tido um impacto maior em mim devido ao fato de ultimamente eu estar lembrando muito dos meus avós. Creio que nos momentos em que somos obrigados a ficar parados (por alguma razão, como por determinação médica) acabamos nos sentindo mais frágeis e com isso tornam-se inevitáveis as lembranças daqueles que mais amamos. Em especial aqueles que já não estão por aqui e nos deixam com uma saudade maior, mais dolorida, afinal, é uma saudade que não temos certeza se algum dia, 'lá do outro lado', poderemos matar. As lembranças acabam sendo um conforto.
Meu avô era um homem muito alegre. Era difícil encontrá-lo de mau humor. Normalmente estava com um largo sorriso no rosto. Era o Papai Noel que sentava com os filhos e netos ao redor, no Natal, com um saco de presentes para fazer a distribuição em meio a muitas brincadeiras, infelizmente o costume ficou no passado - certamente muito mais por culpa dos filhos do que dele - e os bisnetos não chegaram a participar de festas assim. Mas, o Natal era apenas uma aventura anual, porque seo Valdivino nos conduzia a grandes desafios diariamente. No quintal, uma grande horta era cultivada e nós o acompanhávamos nos 'momentos de colheita'. Me lembro do cheiro verde, da cenoura, rabanete, couve e muitas outras verduras ou legumes. Além da horta, ao lado da casa ele também tinha o canteiro de morangos, ah! como era bom comer os moranguinhos que ele pegava no pé para nós provarmos.
Os passarinhos eram seus companheiros também. Ele criava alguns e 'conversava' com eles assoviando, e depois nos contava as histórias sobre os assuntos que eram temas dessas 'conversas'
Uma aventura que eu gostava muito era ir até o paiol, logo nos fundos da casa. Ali meu avô tinha uma pequena marcenaria e várias ferramentas, eu achava tudo muito interessante e curioso. Ficava observando cada detalhe quando ele ia consertar alguma coisa que havia quebrado. Os armários, de madeira, sempre passavam por reparos feitos ali mesmo. A casa toda era de madeira, então não faltavam pequenos problemas para serem resolvidos constantemente. Naquele paiol tive meu primeiro contato com muitas ferramentas, como o torno de bancada, o esmeril e a furadeira manual. Naturalmente meu avô não deixava que a gente chegasse muito perto das ferramentas, principalmente quando estavam ligadas na eletricidade, apenas acompanhávamos a distância, olhos atentos às novidades.
Foi com meu avô também que aprendi a brincar com o baralho. Jogávamos buraco (canastra) e às vezes nos arriscávamos no truco com ele. O divertimento era garantido, principalmente quando minha avó desconfiava que ele poderia estar 'aprontando alguma coisa' para ganhar o jogo. As 'brigas' dos dois normalmente acabavam com ela brava e ele dando as suas gostosas gargalhadas.
Infelizmente, hoje em dia é muito difícil encontrarmos crianças que ao menos saibam o que é um esmeril ou até mesmo uma horta, e mais difícil ainda é achar crianças que ao invés de estarem com um tablet ou um smartphone nas mãos estejam acompanhando seus avós nos quintais ou em oficinas caseiras, cuidando de passarinhos ou jogando baralho. A infância hoje em dia, sem dúvida, é bem diferente.
Dou graças a Deus por tido o privilégio de poder contar com meus avós durante boa parte da minha infância. Tenho certeza de que, hoje, sou uma pessoa melhor devido a essa convivência, aos ensinamentos e exemplos
* Judite Rosa é jornalista em Mato Grosso





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