PUBLICIDADE

Passeatas e beijos perigosos

Roberto Boaventura da Silva Sá Em meu artigo anterior – “Moda do futuro” –, tratei da violência em nosso país. Partindo da morte de um torcedor, a pauladas e barras de ferro, disse que a nossa moda, no futuro, será semelhante à usada pelos cavalheiros medievais.

06/03/2014 16h39 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

No mesmo dia em que publiquei aquele artigo (27/02), o Jornal da Band, no começo da noite, mostrou as novidades das fardas de policiais militares do Rio. Durante a Copa, o batalhão de choque terá proteção contra “a violência que pode ser praticada por grupos como os black blocs”: “...capacete, que resiste à objetos pontiagudos, colete que protege as costas, o tórax e os ombros e caneleiras que cobrem a perna do joelho Na internet, é possível ver a ilustração disso. Vale a pena! A matéria dizia ainda: “A roupa resiste a impactos fortes, como rojões e pedras. Nas mãos, os agentes usam luvas que protegem do calor de até 427 graus. No cinto, há espaço para dois
Com essa notícia, minha previsão já começa a se concretizar. De início, por parte da PM de um estado. Isso poderá ser estendido a todos os componentes das PMs do país inteiro. Depois, o povo – após muitas baixas – perceberá que também precisa de algo semelhante, pois tem contra si dois adversários: um contingente de civis, que nada mais tem a perder, e militares despreparados. Que enrosco!
Mas isso tudo faz parte das reflexões que expus na semana anterior. Hoje, continuo a falar de violência, mas daquela que se comete contra grupos LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Para isso, aproprio-me de dados expostos no “Relatório sobre violência homofóbica no Brasil: ano de 2012”, elaborado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República”.
Em 2012, foram 9.982 registros de violações contra os LGBTT. Desse total, as violências psicológicas são as mais comuns, seguidas das discriminações. As agressões físicas atingem 32,68% dos casos. Principais vítimas: jovens entre 15 e 29 anos (61,16%). Agora, o mais preocupante: em relação a 2011, essa violência aumentou em 46,6%.
Preocupante e previsível.
De minha parte, quando da realização da primeira passeata gay em Cuiabá, fui convidado pelos organizadores para expor as minhas preocupações a partir daquele evento, do qual sempre fui contra. Com muita certeza do que estava dizendo, afirmei que a violência contra os gays só aumentaria depois das passeatas. Aumentou; e muito, em todo o país.
O que me levava a prever aquilo?
Várias elementos, mas destacadamente dois:
1º) o excesso de carnavalização das passeatas, logo transformadas – por espertalhões do gênero – em grandes negócios. As justas reivindicações se perdem entre plumas e paetês. As conquistas legais têm surgido sob a égide da força: imposição do politicamente correto.
2º) questões culturais. O comportamento de um povo todo não se muda por força da lei.
Fato concreto: o aumento de pessoas nas passeatas está quase proporcional ao aumento da violência. O problema não está em quem nas passeatas está. Quem lá está é naturalmente um ser humano capaz de entender e conviver com o outro. O problema, como os hipócritas, ronda ao redor.
Mas para meu temor, há pouco, a maior rede TV expôs um beijo de dois rapazes no final de uma telenovela. Aquele beijo – aliás, sem a devida graça e força do beijo – poderá custar muitas vidas, principalmente dos mais jovens. Muitos deles – desinformados e destemidos – podem cair na ilusão de que, agora em diante, estão livres dos preconceituosos e os dos patológicos. Ledo engano.
Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT





Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE