PUBLICIDADE

Alegro, por Los Trupis...

Texto e foto de Valéria del Cueto   Bordolino olhava pela janela do trem que cruzava o norte da Itália de leste a oeste. Ao seu lado, a bruxa fazia de conta que não prestava atenção ao que acontecia ao que se passava em volta.   Era duro deixar a casa onde nascera em direção a uma nova vida.   Sempre soube que seria assim desde o dia que sentira aquele monte de cocegas, enquanto Anna Truppo o transformava de um pedaço de espuma num fantoche cheio de ideias. Viera ao mundo com uma missão, disso tinha certeza. A questão era: qual?   A bruxa continuava impassível, cheirando o ar seco e profilático do trem Frecciabianca que corria para o oeste. Parecia paralisada sabendo que seu destino era Torino, única cidade por onde passavam os dois círculos de magia na Europa: o negro e o branco. Concentrava a força do seu pensamento para que, ao chegar lá, fosse envolvida pela magia do lugar, mas que fosse a das forças do bem...   Não que Bordolino não acreditasse, mas ainda estava sob o impacto de trocar as mãos carinhosas de sua criadora, Anna e seu companheiro Adilson de Souza, por outras, talvez não tão sensíveis.   Eram a tradução e a síntese do trabalho da artista que, ainda criança, se encantara com a possibilidade de criar infinitas fantasias usando seus talentos para o desenho, a pintura, a escultura e a costura.   Primeiro foram bonecas de pano e roupinhas. O mundo ganhou novas possibilidades quando, numa praça qualquer da Argentina, assistiu extasiada a um espetáculo de teatro de bonecos. Fantoches!   Do que viu criou o que seria. Autodidata, experimentou materiais, manipulou diferentes tipos de espuma estudando sua densidade e flexibilidade.   Ha  22 anos atrás Anna encontrou Adilson, companheiro de vida e labuta. Com ele, em 2005, veio para a Itália, onde nasceram centenas de fantoches vendidos em feiras e eventos típicos das cidades italianas.   Aqui foram esculpidos, pintados, vestidos e manipulados Bordolino e a Bruxa. Ambos, parceiros na viagem inevitável destinadas aos fantoches de “Los Trupis”, nome adotado pela dupla sul-americana. Viajantes, todos viajantes. Do tempo, das terras e, se possível, da felicidade e cumplicidade que une o casal.   A produção dos títeres é pequena. Seleta. São seis personagens. Entre eles a bruxa, o mago, o velho e alguns animais. Mas tudo é uma questão de inspiração e das mãos mágicas de “Los Trupis” tudo pode surgir: a emoção brota dos olhos expressivos e brilhantes dos fantoches que, quando manipulados, ganham vida própria pelos dedos ágeis (ou não) de quem os adota.   O trem segue, como a vida. Bordolino observa sua companheira e, pouco a pouco, vê em seu rosto que o pior já passou. As correntes estão sendo rompidas. A bruxa está perdendo o medo, deixando a curiosidade das terras que nunca viu - nem mesmo em seus mais loucos sonhos de feiticeira animada - dominar seus pensamentos.   E assim, pela face sem disfarce da bruxa, Bordolino vê passar a esperança e da força da fantasia, esculpidas por Anna e Adilson, numa mensagem que será levada para outras terras, depois de muitos mares. Ela diz que o bem sempre vencerá o mal e encontrará seu rumo. Outro, agora...   Bordolino vê que a bruxa sabe. Mensageira do bem e da verdade, sua magia leva um recado de luta, conquista e vontade para todos o que, acima de tudo, acreditam no poder da fantasia e, por isso, não abrem mão de sonhar...   *essa crônica é dedicada a Cacá de Souza e sua generosidade que colocou em meu caminho mais um irmão...     **Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

28/10/2013 00h42 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00





Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE