PUBLICIDADE
ANNA MARIA RIBEIRO COSTA

José Xavier Cortez: Um Mandacaru sonhador

27/09/2021 12h26 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00 1 comentario



No Univag – Centro Universitário de Várzea Grande, na noite do dia 24 de agosto de 2016, tive o enorme prazer em conhecer José Xavier Cortez (1936-2021). Havia me preparado dias antes, quando a Profa. Terezina Paes de Arruda, Coordenadora do Curso de Serviço Social – a consagrada Tetê –, me confiou a honrosa tarefa de proferir algumas palavras a José Xavier em um evento por ela organizado. Os ânimos do curso estavam fervorosos com a expectativa de estar com Cortez em uma “Roda de Conversa” com o objetivo de estimular os estudantes ao hábito da leitura. Em um cenário montado para aquela ocasião, na companhia de Tetê, do Bibliotecário Douglas Rios e da plateia lotada de docentes e discentes, dirigi-me ao personagem principal daquela noite.

Serei breve. Não posso deixar de dizer algumas palavras sobre sua pessoa, José Xavier Cortez, Zé do Mizael, como também é carinhosamente chamado, em referência à sua condição de filho de Mizael Xavier Gomes.

Cortez, que também traz em seu ser a identidade indígena, perceptível em seus pequenos olhos de índio, desperta em quem passa a conhecê-lo “uma paixão biográfica à primeira vista”, como escreveu Goimar Dantas, uma de suas brilhantes biógrafas.



Zé do Mizael, nascido em Currais Novos, Rio Grande do Norte, no Sertão de Seridó, região que abrange os estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Engana-se quem imagina ser o Sertão do Seridó um lugar despovoado, solitário. Lugar de cânions, de sítios arqueológicos com pinturas rupestres que contam fragmentos do cotidiano de antigos grupos humanos, de açudes – verdadeiros oásis em meio à aridez do solo e da seca prolongada – de caatingas e também da nascente do rio Potengi, lugar onde brotam gotinhas de água que se transformam no principal rio da cidade de Natal, Rio Grande do Norte.

Sertão do Seridó! Sertão, entendido pelo saudoso historiador e folclorista Luiz Câmara Cascudo como “uma palavra mágica”; Seridó, “pouca folhagem/pouca sombra”, na língua dos Tapuias, considerada uma das regiões mais secas do Rio Grande do Norte.

Sua cidade natal, Currais Novos, está tão distante do imaginário social de brasileiros que vivem em outros Estados. Mas, ao contrário, Currais Novos é referência na história da escravidão no Brasil. É cenário para o pódio dos heróis que “não viraram estátuas” e continuam anônimos nas páginas da história oficial. Isso porque o povoado participou ativamente da campanha abolicionista, quando libertou o último escravo em março de 1888, três meses antes da Lei Áurea.

Sua vida remete a tantos outros fatos históricos. Destaco aqui a sua expulsão da Marinha, depois do golpe militar de 1964, por sua atuação na Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, quando denunciou as precárias condições de trabalho, assim como o fez décadas antes João Cândido, conhecido como “Almirante Negro”, que irrompeu na Revolta da Chibata, no início do século XX, no Rio de Janeiro.

A noite é sua! Sinta-se em casa; sinta-se na Cortez, diante de um público que reconhece o lugar da Editora Cortez no processo de formação de Assistentes Sociais. Deve ser destacado nesta hora o lugar da Editora Cortez na história do Serviço Social no Brasil. Trago à cena a Revista Serviço Social e Sociedade, com seus 37 anos – uma balzaquiana nos dias de hoje. A revista, um registro da história presente do Serviço Social brasileiro, participa ativamente na qualificação acadêmica e da produção intelectual, um instrumento para repensar um novo Brasil como um todo.

Hoje, com sua presença no campus do Univag, especialmente entre alunos e professores do curso de Serviço Social, o sertão do Seridó se faz também presente em terras mato-grossenses.

Para finalizar, vou compará-lo às aves e aos ventos que pelo vasto Sertão do Seridó espalham sementes do cacto Mandacaru, um dos vegetais predominantes da região. E por que também não compará-lo ao Mandacaru?

Assim como as sementes do Mandacaru germinam em lugares onde aves e ventos as deixam, com lindas brancas flores que desabrocham na escuridão da noite para alimentar abelhas, com frutos de cor violeta que alimentam espécies de aves da Caatinga, quase desértica, Zé do Mizael esparrama livros-sementes por este Brasil afora, para alimentar de saberes mentes e almas que clamam por dias melhores, mais felizes, mais humanitários.

Adeus Zé do Mizael. Temos certeza de que a força dos ventos que espalha as sementes do Mandacaru é a mesma que espalha a sua voz das tantas e tantas “Rodas de Conversa” em prol da transformação pela leitura.

Anna Maria Ribeiro Costa é etnóloga, historiadora, escritora e filatelista na temática ‘Povos Indígenas nas Américas’.



1 COMENTÁRIO

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

  1. Comovente e história as palavras da nossa amiga. Deve ter deixado o Zé do Mizael emocionado. Como eu viajei um pouco durante a leitura. Parabéns e sucesso!!!

Comente, sua opinião é Importante!

PUBLICIDADE