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ANA MARIA RIBEIRO COSTA

Lévi-Strauss, Anna e Rosana: Um tentame Onírico

10/09/2020 16h41 | Atualizada em 18/09/2020 15h14

Rosana Campos Leite Mendes*



 

Querida Anna,

Ainda que a gente não tenha se falado, pensava aqui na semana passada também, na velocidade e incerteza descrita por você das palavras de Lévi-Strauss. Mandei com isso:



Zygmunt Bauman, um dos sociólogos dos mais respeitáveis de nosso tempo, em seu livro Modernidade Líquida (2000) apontou o que ele denominou de passagem da “modernidade pesada e sólida” para uma modernidade “leve e líquida”. Esta transição, segundo ele, afetou os mais variados aspectos de nossa vida. Ou seja, pensar em estruturas duradouras passou a ser um risco. Nesse sentido, tudo que era tido como “volumoso, extenso, sólido ou pesado” passou a ter um sentido de restrição. Aquilo que é portátil ou descartável assume a nossa frente os objetos na era do instantâneo.

    A questão colocada por ele é: como conceber uma cultura indiferente à eternidade e que evita a durabilidade? Em acordo com Bauman (2000, p.163) “o advento da instantaneidade, tem nos levado a territórios não mapeados”. Como lidar com os afazeres num mundo cada vez mais da transitoriedade? As ações humanas, a durabilidade, o transitório, a mortalidade humana, enfim, tudo isso toma proporções bastante significativas se levarmos em conta o contexto relacionado à gravidade da situação gerada pela pandemia de coronavírus (covid-19), declarada pela OMS, neste ano, e a emergência em saúde pública.

      Hoje, 7 de setembro, estamos com 157 dias dessa declaração da OMS em 2020 e com 198 anos da Declaração de Independência do Brasil do Império Português em 1822. Feriado. Entre texturas de brevidade lenta e euforias apressadas que rondam dias assim para “usufruir ao máximo” relato aqui o que disseram sobre o meu “encontro Onírico com Lévi-Strauss” em Paris.

     Recebi assim: Seu sonho já veio com cenário de filme que vai para festival de Veneza.  Baudelaire em seu ensaio, de 1863, "O Pintor da Vida Moderna” apresenta um senhor C. Guys como alguém singular e original. Este, um pintor que o poeta francês relata ter visto em sua obra fluidez e modernidade. Seria então, “o circunstancial e o eterno que a modernidade preenche pelo transitório”. Guys como um homem que pintou o movimento, o transitório com a beleza do eterno. Ou seja, aquilo que não se muda e sempre admiramos.

     Em sua escrita você narra um sonho encoberto de multidão, movimento, ruas parisienses, empurra-empurra e o encontro (na multidão...) com apenas ele..."Lévi-Strauss". E ainda este coloca a mão em seus ombros e lhe retira dessa mesma multidão. Em reservado, uma bela mulher arruma a mala. Tudo em movimento, amiga Anna. Talvez não seja mesmo possível sair da roda. Talvez o que resta é fazer o que você brilhantemente executa:dribla, ajeita e remodela com outros arranjos o que não é possível de estancar: o mundo em rotas mesmas. Há mais de doze anos vocês trocaram cartas e você ainda as faz ressoar.

    Sua escrita e presença sempre nos reforça a esse movimento de retorno aos nossos que já fomos aqui nessas terras um dia e que continuamos a ser. Quem sabe Lévi Strauss não esteja amorosamente caminhando (com você!) nisso. Somos a parte de um todo. Talvez, você nos diga isso, em suas escritas, mas também nos diz que é possível movimentos humanos com pezinhos em suavidade, amorosidades em riso, olhares atentos a tudo que está ao redor, sagacidade. O que é detalhe, para você vira lenta em "zoom" e reforça o que para muitos de nós é só uma "olhadela" apressada.

    VELOCIDADES, TRANSFORMAÇÕES E INCERTEZAS. Ficamos então com você e Lévi-Strauss que com 100 anos ainda teve que ver muitas coisas. Nós, aqui, a ver outras tais com o Povo Pataxó, na idílica Coroa Vermelha, nas ricas terras de Porto Seguro-BA, que em plena pandemia esteve com Polícia e Justiça Federal no pescoço querendo reintegrar posse de terra (Você viu? são os invasores...) de uma "pista de pouso de CLUBE de aviação". Vamos trocar moradia por Clube de recreação de brinquedo de gente grande e caríssimo: avião. Já posso imaginar alguém em uma portaria vendendo ingressos: CASA OU AVIÃO?  Estamos bem mesmo, bem pandêmicos! 

 

Por Rosana Campos Leite Mendes

Doutoranda em Literaturas e Práticas Sociais (UnB)

Mestre em Educação (UFMT)

 

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