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ANA MARIA RIBEIRO COSTA

A Máquina de costura de minha mãe (III)

29/06/2020 10h24 | Atualizada em 29/06/2020 10h39

Memórias de uma máquina de costura chega ao último episódio. Jamais imaginei que a máquina de costura de minha mamãe promoveria um encontro familiar. Porque o ato de costurar é quase sempre solitário. A voz da máquina é soberana, quase arrogante. Durante seu manuseio, não se permite o diálogo. Mas, engano pensar que a habilidosa costureira se deixa levar pela manifestação dominadora da máquina. O ato de costurar simula ser solitário. Os metros e metros percorridos pelas agulha e linha são sobrepostos por lembranças atemporais. A trajetória das inseparáveis agulha e linha, seja reta, em curva, a dobrar esquinas, no vai e volta do cerzido e do arremate, provoca encontros inesperados de gentes de tantos tempos que se achegam à costureira. A varinha de metal, como uma varinha de condão, tem virtudes especiais, poderes misteriosos. A hastezinha fina promove viagens pretéritas em velocidade estonteante.



E a máquina de costura de minha mãe chegou a Cuiabá... Mamãe me presenteou com sua máquina! Mamãe me presenteou com a máquina de costura de minha vó Aurora, um modelo bem mais antigo! Anos mais tarde, minha sogra Dona Nilza me presenteou com sua superpotente BZC 64-7, elétrica, com lâmpada e um montão de funções tão desconhecidas para mim.

Ter a posse de 3 Singer não é brincadeira! Objetos de memória, que guardam segredos e vivências de mulheres tão especiais. Elas não estão juntas: a de minha mãe está no sítio Monte Aruna, Água Fria; a de minha vó, passei para minha irmã; a de minha sogra está em Cuiabá, a mais próxima de mim e, por isso, a que mais uso.

Não faço mais roupas para mim. Limito-me a pequenos reparos, trabalho que não curto muito. O que gosto mesmo é criar toalhas de mesa, passadeiras, lençóis, fronhas, almofadas, tapetes com estofo. Meu tecido preferido? Chita! Chitão, com estampas mais avantajadas. O desejo de criação começa lá na Kotinha, no calçadão da Galdino Pimentel. Com a atendente Anne, de sorriso tão estampado quanto os tecidos, me inspira-instiga à combinações ousadas que jamais pensaria ser possível.



Também, eu e Rosemar Coenga, não imaginamos ser possível reunir tantas costureiras n’A Casa do Parque. Uma exposição em homenagem às mulheres de mãos mágicas que esculpem colchas de retalhos. E lá estavam expostas, como obras de arte, alinhavadas com poesias de Aclyse de Mattos, Edson Flávio, Ivens Cuiabano Scaff, Janete Manacá, Lívia Bertges, Lúcia Helena Gaeta Aleixo, Lucinda Persona, Luiz Renato, Marília Beatriz de Figueiredo Leite, Marli Walker, Rosana Campos, Thereza Cristina Ribeiro. 

O ato de cozer reúne uma conjunção de recordações que se encontra às estampas dos tecidos e à voz da máquina de costura, seja qual for. O imaginado antes de me sentar diante à máquina nunca corresponde à peça final. A criação finaliza com as expressões de Edu, Loyuá, Danton, Márcia, Tetê, Leila, Rosana, Hellen e tantas mais pessoas que presenteio com meus feitos.  Tenho duas pessoas a presentear: uma toalha para a mesa do sítio de Luís e Muca, pais de Rosemar, e outra para Marília Beatriz. Em falar em Marília, postou ela um comentário sobre a crônica “A máquina de costura de minha mãe (II), exclamando que sou “feita de sutis arabescos”, ornato de origem árabe em que linhas, ramagens, grinaldas, flores e frutos se entrelaçam. Saberá ela de minha origem árabe?

 

 

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