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ANA MARIA RIBEIRO COSTA

Marcello Grassmann, pelas mãos de Rosana Campos.

18/05/2020 13h52 | Atualizada em 18/05/2020 14h00

‘Modernistas Brasileiros’. Lá estive! O preciso dia não me lembro. Pouco importa. Algum dia, que não foi qualquer, entre 23 de outubro a 23 de novembro. Um mês inteiro do 2014. Museu de Arte de Mato Grosso, de 1940. Residência dos governadores. Depois tantas outras instituições abrigou.



Grupo dos 7: Clóvis Graciano, paulistano que trouxe para sua arte Picasso, Cézanne e Portinari e num ‘tudo junto misturado’ à Graciliano Ramos, que de um ingênuo e preciso início nas estações ferroviárias chegou a Paris como adido cultural; Tuneu (Antônio Carlos Rodrigues), aluno da ‘musa do modernismo’ que levou suas linhas retas e curvas às infinidades; Maciej Babinski, o polonês carioca-paulista-mineiro-cearense; Aldemir Martins, conhecedor das paisagens e das gentes nordestinas; Marcello Grassmann, o dos ‘Cavaleiros Noturnos’ e das figuras fantásticas; Cícero Dias, aquele que viu o mundo, que ilustrou ‘Casa Grande e Senzala’ junto a Tomás Santa Rosa e Poty; Tarsila do Amaral, apreciadora da aguardente brasileira, que gostava de passear no Cadillac verde de Oswald – bendita tu fostes entre os homens.

Vestidos de diferentes tendências das artes plásticas lá estavam a ocupar antigos aposentos da Casa dos Governadores: 7 artistas – 40 obras. Serigrafias, gravuras em metal, xilogravuras. Acervo permanente do Museu de Arte de Mato Grosso, uma dádiva do Banco do Brasil, da Secretaria Estadual de Cultura, da Associação Casa de Guimarães às gentes de Mato Grosso.

Outro encontro com Grassmann. Duas xilogravuras adquiridas por meu irmão Danton, meu mecenas da Literatura, patrocinador generoso que me presenteava com livros e mais livros enquanto estive afastada das livrarias por estar nambiquarando, em pleno cerrado amazônico. Cabeças de cavalos, certamente por conta de sua paixão por cavalos, herdada por nosso pai.



Em fevereiro deste ano, reencontro Marcello Grassmann. Me chegou pelas mãos de Rosana Campos, a corumbaense, amiga de Taunay. Trouxe da cidade dos candangos: ‘Marcello Grassmann desenhos’, livro nascido de uma exposição comemorativa dos 80 anos do artista, 60 de carreira, 10 de abertura do Centro Cultural do Instituto Moreira Salles, Higienópolis, São Paulo. Ferreira Gullar apresenta o livro e confessa: ‘Uma estética do assombro’.

Eram os 24 de fevereiro. Ela com seu Taunay nos braços, recém-nascido.

Interpretou Gullar os desenhos de Grassmann: ‘beiram uma espécie de desordenação deliberada, numa dialética da ordem e da desordem, que não é a mesma coisa que a do acabado e do inacabado, sempre presente no traçar das figuras; agora, trata-se da desordenação da composição, vinculada a uma população de seres que nascem do abismo gráfico, do sortilégio das linhas.’ Nos princípios que orientaram a ordem-desordem de Balandier, em um elogio ao movimento, um jogo de tensão.

Acreditando no movimento criativo advindo da desordem, do emaranhado de linhas de dias ínvios, a arte de Marcello Grassmann pode servir de direção. Encontram elas movimentos para se metamorfosear em seres viventes, a ganhar rostos, olhos, dedos, garras, patas, rabos. Opostas, a ordem e a desordem, em tensões contínuas, convertem-se em primazia da ordem. Em tempos pandêmicos, que os olhos grassmannianos e seu admirável mundo possam sulear direções mais seguras, a nos obrigar a ser feliz.

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