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ANNA MARIA RIBEIRO COSTA

Meu irmão, um missivista

15/05/2019 10h04 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Meu irmão, um missivista

Divulgação

Em viagem ao Rio, também um momento oportuno para leitura, me deparei com meu apreço por cartas lendo “Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin” escritas por pessoas de fama entre os séculos XVII a XX, livro organizado por Irene Paris Buarque de Holanda, sobrinha de Chico Buarque.

Guardo cartas de amigos, de antropólogos, de alunos do ensino fundamental, enquanto professora da Escola Livre Porto Cuiabá, de alunas universitárias, de meus pais (estas em maior quantidade), de meus irmãos, de meus filhos, de Edu. Mas, ultimamente, é de meu irmão Danton, o primogênito, que tenho recebido cartas que me chegam via correio e WhatsApp. Pelo aplicativo, endereçadas a mim, não em forma de mensagens de texto, alcançam imagens fotográficas de suas cartas escritas a mão.

De assunto variado, as cartas recebidas de Danton desenham partes de sua identidade, pois exaltam seu gosto pela leitura e viagens; revelam seu capital cultural; denunciam seu estado de espírito; revelam seus sonhos. A última, recentíssima, de 12 de maio, me chegou fotografada por WhatsApp. Nela, o remetente demonstrou sua frustração por eu e Rosemar Coenga não termos mais páginas para escrever “Práticas interdisciplinares de leituras em HQs: olhares sobre a Literatura e História”. Isso porque as normas da revista acadêmica impunham um número de páginas incompatível com sua vontade de saber mais sobre João Cândido, personagem central de nossa abordagem, um dos líderes da revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1910.

Essa última carta, ainda que sem seu consentimento, deve ser lida por mais pessoas. Revelo-a:

“Que pena! Que grande pena! Sua escrita não é mais para poucas linhas! As histórias que conta e canta estão engordadas não cabem mais num pequeno estojo de papel. Fui procurar na sua rica ideia de escrever sobre o ‘almirante negro’ a poesia e o encanto das águas do Minhocão do Pari.

Fiquei procurando em qual linha surgiria, um parágrafo em que o ‘mestre-sala dos mares’ apareceria sobre as águas da Guanabara, onde ele surgiria contando o quanto seu navio de guerra teria navegado e quantas e quantas histórias viriam à tona! Cadê? Faltou. E, pior do que faltar, as histórias, as lutas, aventuras de J. Cândido não puderam sair das águas para o papel! Um navio repleto de histórias ficou à deriva!

Que pena! Que grande pena!

Será que você me daria um presente?

Coloque em muitas linhas – muitas – a quantidade de dados, pesquisas e histórias sobre esse grande marujo J. C. envoltas em sua escrita poética.

Senti falta de você contar sobre as “tristezas ancestrais” de J. Cândido. Senti falta de saber da ‘saudade que fecha seus olhos para ver melhor o passado’ de J. Cândido, histórias do Pari, misturadas às águas salgadas de J. Cândido.”

 

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Li no livro ‘Cartas da Biblioteca Guita e José Mindlin’, que ‘é uma pena que o hábito de escrever cartas esteja sendo substituído por técnicas mais imediatas’. Dessa dor, Danton, meu missivista mais frequente, não sofre. Da mesma forma, como ocorreu com o livro que me inspirou a escrever esta crônica, Irene Paris Buarque de Holanda também teria dificuldades em selecionar as melhores cartas de Danton para reuni-las em um livro. Ao passo que eu as coleciono como raridades.

 

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