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CRISTIAN SIQUEIRA

Ancestrais Amigos

29/10/2018 18h01 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

No final dessa semana celebramos no Brasil, no dia 02 de novembro, a memória dos Fiéis Defuntos. A celebração é antiga e representa grande movimentação religiosa e comercial nos espaços dedicados á receber os restos e despojos da matéria sem vida.

A celebração é tão profunda que sua vivência se torna cada vez mais superficial. As pessoas não conhecem mais o sentido de ir ao cemitério ou fazer determinadas práticas, no entanto, o costume familiar e social são usados como justificativa para criar ocupações no dedicado dia. Para entendermos o sentido do dia de finados é necessário voltarmos a séculos atrás, ou milênios, quando as primeiras noções de sociedade do homem criaram naturalmente a ideia do espirito e de sua existência fora da carne. Acreditar na vida além da morte aparente deu inicio aos cultos aos ancestrais; quem eram os ancestrais? em suma aqueles que antes vieram a terra, formaram a família, as sociedades e fizeram com seu trabalho, esforço e evolução o mundo que seus descendentes, a atualidade, possuem para viver. Os homens cultuavam seus ancestrais de variadas formas: algumas sociedades ofertavam festas, outras refeições, outras cerimonias, e assim a diante de acordo com a visão e entendimento de cada grupo. O tempo foi passando e o culto aos ancestrais que antes era uma certeza passou a ser visto com outros olhares; a verdade da vida após a morte passou por mudanças grotescas influenciadas pelos interesses particulares que se viam afetados com a crença. Os mortos comuns, familiares, ancestrais de grupos específicos foram sumindo paulatinamente dando lugar á espíritos coletivos como os santos, por exemplo. O evocar um espirito, saudá-lo, honra-lo, foi sendo substituído pelo evocar, saudar e festejar dos santos, mortos como nós, mas cuja vida e moral exemplares os colocou em lugar de destaque recebendo o adjetivo de modelos a serem seguidos. Os santos são ancestrais coletivos, saudados ainda hoje por um grupo grande de pessoas que, na imensa maioria das vezes não possuem laço familiar com eles, apenas uma afinidade espiritual.

Os nossos irmãos mexicanos acreditam que para que o morto continue a viver do outro lado ele precisa ser lembrado. Essa ideia preservada na tradição cultural desse país preserva a pedra fundamental do culto aso ancestrais: a continuação e preservação da memória dos que se foram. A vida nunca se acaba, ela apenas muda de palco, e, aqueles que não se encontram mais nesse palco chamado matéria se encontram certamente em outros locais cujas respectivas presenças são necessárias. O elo que nos mantém ligados com esses amigos bem como nos permite estar conectados com aquilo que de mais sublime o homem pode conceber é exatamente o respeito e a preservação da ancestralidade particular de cada um. Ainda hoje essa ancestralidade é respeitada e cultuada de diversas formas, no entanto, seu entendimento se perde cada vez mais na confusão social, religiosa e cotidiana fundamentada em várias razões.

Todas as vezes em que o homem se esquece do ancestral, ele perde sua identidade. A ancestralidade é a única segurança que temos de saber o caminho que devemos seguir nas situações em que nos perdemos na vida e não encontramos mais o sentido de viver. Sempre que nos perdemos na vida devemos olhar para trás, para aqueles que preparam nossa vinda, que preparam a terra que pisamos, para que neles encontremos os ensinamentos que desde o inicio norteavam nossos passos, afinal de contas, o homem que não sabe de onde saiu, jamais saberá onde deve chegar.

O futuro se entende pelo passado e se constrói no presente. No dia 02 de novembro não se satisfaça apenas com a vela e com as flores que o tempo, o sol caloroso de Cuiabá, e as águas de novembro irão aniquilar, faça mais, ou faça diferente,  e supere as expectativas daqueles que tanto fizeram por você; tire aquele álbum antigo de fotos do armário, reveja ele, nem que seja pelo milionésima vez, reveja os olhares daqueles que tanto desejaram o bem estar da descendência da qual você faz parte, se não tiver fotos, não se preocupe, se valha de sua memória, relembre seus feitos para os caçulas e maduros da família, riam dos momentos, revivam as boas conversas e conselhos e se tranquilize por saber que a amizade e os laços nunca se acabam, apenas mudam de lugar.

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