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Anna Maria Ribeiro Costa

Jacutinga e o trombone de Asdrúbal

07/12/2017 07h59 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00


Capa do livro “Asdrúbal trouxe o trombone”, de Heloisa Buarque de Hollanda (2004)

Entre o povo Nambiquara do Cerrado, ao redor da fogueira no meio da floresta do Guaporé, em acampamento de caça, Jacutinga revezava com outros índios a tarefa tocar flauta. Arriscava desconcertantes notas musicais, entremeadas pelos risos dos seus pares. Noite alta, as flautas a evocarem proteção do espírito do menino que se transformou em plantas comestíveis e utilitárias, para eles o início da agricultura.

A alegria, a flauta, a melodia tem a função de afastar Atasu, ente maléfico    que habita a escuridão das matas, pronto a devorar os índios e, o pior, os sentimentos virtuosos de suas almas que conformam sua humanidade. Entendem os índios que atitudes insidiosas podem levá-los a contrair doenças e, até mesmo, transmutá-los em bichos.

Jacutinga, ante o tremular do fogo, hipnotizado, não podia deixar de lembrar da “trupe solitária de comediantes que abalou os anos 70”, “Asdrúbal trouxe o trombone”, em sua estreia, em 1974, junto aos amigos do Rio, da Esteves Júnior, encenada também para despertar a humanidade e o humor dos cariocas frente ao Atasu da ditadura. Pensou nas crianças a revirar lixo do Jardim Gramacho, a doarem-se em meio aos frutos podres do materialismo ocidental, a gerar o nascer de sentimentos nobres em nossas almas.

A estrela d’alva anunciou o amanhecer envolto em muitos pensamentos, todos juntos e misturados. Como canta Milton Nascimento, “se quieres ser feliz, como me dices, no analices, no analices”. Não julgue, desça o rio de bubunha, mirando as curvas e lares. Mudar as coisas de lugar. Por onde andarão os amigos, a outra metade de Jacutinga?

Diante da complexa sociedade ocidental, o que mais intrigou Jacutinga foi a felicidade e a poética do povo Nambiquara. A dádiva da cumplicidade e a liberdade de escolha dos índios em contradição à truculência do “vigiar e punir” do Estado e das Igrejas. Foi entre o povo Nambiquara que Lévi-Strauss verificou a generosidade como a principal qualidade de um líder, a liberdade e o consentimento os substratos das relações, e afirmou: “procurava uma sociedade reduzida à sua expressão mais simples. A dos Nambiquara o era, a tal ponto que nela só encontrei homens.”

* José Eduardo Fernandes Moreira da Costa,

Indigenista

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