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CRISTIAN SIQUEIRA

Carybé e os Orixás

10/08/2017 06h30 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00


As deidades africanas (Orixás, Voduns e Minkissi), desde algumas décadas, são fontes inspiradoras para as mais diversas classes artísticas. Da literatura à dança, não há uma manifestação artística existente no Brasil que em algum momento até hoje não tenha dialogado com os cultos afro-religiosos. Essa é uma conversa fácil de entender a partir do momento em que compreendemos ser a arte uma manifestação do espiritual; a harmonia, a perfeição, a técnica, são características marcantes do Criador, o Artista Supremo, assim, tudo que transmite o Criador certamente também transmitirá a arte. Os artistas são um ponto de observação e estudo voltados a um entendimento e observação de um adjetivo divino específico que é exatamente o Criador Artista.

Um dos artistas, digamos, brasileiro que conseguiu transmitir essa arte espiritual com grande acuidade foi Carybé, que na verdade era argentino mas morreu naturalizado brasileiro. Carybé, embora não acreditasse na vida após a morte, foi um profundo pesquisador das religiões afro-brasileiras. Era recebido nas mais tradicionais casas de Candomblé de Salvador e participava de rituais secretos do rito daquela época. Amigo íntimo de Jorge Amado e Pierre Verger, Carybé soube como poucos transmitir a delicadeza natural dos ritos africanos através de composições simples e enigmáticas aos olhos de quem não conhece o desenrolar das cerimônias retratadas. O artista, de tão íntimo que era dos cultos, até mesmo recebeu um cargo e título dentro do Candomblé baiano; ali ele era um dos 12 Obás de Xangô, um conselheiro do alto escalão religioso da época.

Ao contrário do que pensam, seu trabalho sempre detalhista não era realizado ao vivo durante as cerimônias a que assistia. Carybé usava de sua memória prodigiosa para guardar os mínimos detalhes em sua mente e só depois as memórias formavam telas. Isso ele fazia, como sempre fez questão de frisar, “por respeito ao Culto”, algo que está sendo deixado de lado nos dias atuais. Faleceu em outubro de 1997 – como não poderia deixar de ser – dentro do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, em Salvador, indo morar junto das energias que ele louvou em seus mais de 4.000 trabalhos.

Se você quiser conhecer mais de Carybé e de seu olhar afro-religioso, não deixe de visitar a exposição “Carybé, o compadre de Ogun” na Casa do Artesão, em Cuiabá. Ver a arte que toca é sempre uma oportunidade de tocar a fonte de toda beleza manifesta ou não.

Axé.

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