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ANNA MARIA RIBEIRO COSTA

O ROUBO DO PAU-BRASIL

Não é de hoje que os povos indígenas sofrem com o ato inescrupuloso da usurpação das riquezas naturais

Anna Maria Ribeiro Costa

Colunista

18/05/2017 10h44 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00


Entre 1500 e 1530, o pau-brasil foi o vegetal de cobiça da Europa, primeiro produto a ser explorado pelos portugueses após o achamento do Brasil. Mas não somente os portugueses que vislumbraram a tinta proveniente do vegetal. Em 1550, de Rouen, porto às margens do Sena, região histórica da Normandia, noroeste da França, partiram embarcações francesas em direção à América do Sul, especialmente ao Brasil. A cidade, um importante polo europeu de tecelagem, também encontrou na resina vermelha do pau-brasil a cor para tingir seus tecidos, enquanto indígenas a utilizavam para vestir seus corpos ou ornar artefatos.



Ao cruzarem o “mar tenebroso”, esquadras francesas carregaram o tom do vermelho não encontrado na Europa. Também transportaram muitos índios e índias que, ao chegarem em Rouen, foram expostos em uma feira, ao ar livre, tal qual espécimes vivos, “vestidos de inocência”, nos dizeres de Colombo, para jamais retornarem a Pindorama.

Em 1º de outubro de 1550, Rouen ofereceu uma grande festa para Henrique II e Catarina de Médicis, reis da França renascentista. Na cidade foi construída uma estalagem, Ilha Brasil, palco cercado por paliçada, tal qual o costume Tupi, onde meia centena de índios reproduzia o cotidiano aldeão do litoral brasileiro. Índios adornados com plumas, a empunhar armas e instrumentos musicais, circulavam em meio às casas de palha, palmeiras, mamíferos, aves, especialmente papagaios falantes do francês. O cenário era a grande atração para a corte francesa, uma tentativa criada por comerciantes de Rouen para convencer o rei a investir ainda mais na pirataria dos trópicos, na pirataria na costa brasileira, terra dos indígenas.



Não é de hoje que os povos indígenas sofrem com o ato inescrupuloso da usurpação das riquezas naturais existentes em seus territórios. Para além de suas próprias terras, a água dos rios que corta suas aldeias passou a incorporar o rol da cobiça desenfreada dos não índios. Junto à luta pela “Demarcação já”, é preciso fazer valer os modos de viver das 252 etnias existentes no Brasil. 

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