Sábado, 27 de Maio de 2017
ANNA MARIA RIBEIRO COSTA

JACUTINGA E A SOCIEDADE ALTERNATIVA

Feliz da vida foi Jacutinga para o Planalto Central, abençoado por sua mãe, como em todas as espécies...

 

Feliz da vida foi Jacutinga para o Planalto Central, abençoado por sua mãe. Como em todas as espécies, sabia ela que “filhos são do mundo”. 

A mineira de Cristina pressentiu que Jacutinga seria o primeiro filho que daria o voo mais distante. Sua cria se afastou do desejo de migrar para a Serra da Mantiqueira para se dedicar à arte oleira. 

Fez um curso de cerâmica no Sesc Tijuca, quando aprendeu a dar forma e impingir cor ao barro com um ceramista do Nordeste. Nessa época, criava artefatos em couro, especialmente sandálias com solado de pneu. 

Tornou-se um autodidata em permacultura, cultura que adota métodos holísticos que valorizam conhecimentos ancestrais associados aos da ciência moderna.

Jacutinga buscava ambientes humanos sustentáveis para viver em harmonia com a natureza, prática desenvolvida desde os anos de 1970, na Austrália.

Na mala do “carioca da gema” foram também os ideais expressos no folhetim Underground, editado por Hamilton Almeida Filho. 

Em Brasília, em uma pensão no Gilberto Salomão, onde estavam todos os aprovados no concurso, dividiu o quarto com Davi Terena, que chamava a atenção pelo corte de cabelo: um topete alto, como um cocar.

Havia um rapaz negro que escrevia diariamente uma carta de amor à sua companheira; um “japa” com ideias revolucionárias, que foi demitido da Funai; o Samuca, de Belém, com jeito de budista; o Jazon, que exibia aos colegas sua resistência à dor, furando a bochecha com agulha; um pajé Timbira, que vez por outra sumia pelo cerrado brasiliense.

De setembro a dezembro de 1979 ficou por conta do curso de Indigenismo. Dentre os professores estavam Roque de Barros Laraia, Júlio Cezar Melatti e o saudoso Cícero Cavalcanti de Albuquerque, sertanista que lembrava Ariano Suassuna. 

No pensamento de Jacutinga, a troca de experiências entre colegas e professores foi marcante para a carreira de indigenista.

Sentia que os conhecimentos em barro e couro, da permacultura, da Eubiose, do ideal Underground e da Antropologia Indígena seriam essenciais para se criar uma sociedade alternativa.

 

Anna

Anna Maria Ribeiro Costa

Anna é doutora em História, etnógrafa e filatelista e semanalmente escreve a coluna Terra Brasilis no Circuito Mato Grosso.

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